sábado, 25 de maio de 2013

Mutações na periferia

por Julio Canuto

No dia 03 de maio recebi, por e-mail, a tese de Tiarajú Pablo D'Andrea, intitulada A Formação dos Sujeitos Periféricos: Cultura e Política na Periferia de São Paulo, com a divulgação da Sexta Socialista, evento que ocorre toda primeira sexta feira de cada mês no Espaço Cultural Mundo da Lua, em Guaianazes. 

Devorei a tese dentro dos trens da CPTM, no trajeto de ida e volta do trabalho. Devorei porque muito me interessei pela abordagem e recorte, e também por ser um trabalho novo e inovador, com pesquisa e reflexão sobre os coletivos de cultura que realizam ótimos trabalhos na periferia de São Paulo e uma rica discussão sobre esta nova forma de fazer política. 

Neste momento, porém, não vou entrar nesta discussão, tampouco fazer comentários sobre a influência do rap no processo. Farei, a seguir, uma discussão paralela, dialogando com a tese, que representa algumas das coisas que me vieram à cabeça durante a leitura. Vou pela trilha do trabalho e consumo.

Começo pelo ponto central da tese, qual seja: a apropriação do termo periferia pelos moradores desses bairros localizados nas extremidades da cidade, mas não pelo seu sentido geográfico, e sim porque abrange uma série de características locais e comportamentais que definem o morador destes espaços.

A meu ver, D'Andrea acerta em sua tese quando diz que o conceito periferia pegou pela sua abrangência. Me lembrei de algumas discussões sobre a origem dos subúrbios e como se desenvolveu em diferentes países. 

DO SUBÚRBIO À PERIFERIA: TRABALHO, PRECARIZAÇÃO, DESEMPREGO

Nos países de língua inglesa, o subúrbio era o local de moradia das classes de maior renda (alta e média-alta), afastado do centro, com tranquilidade e segurança. Subúrbio pode ser bairros ao redor do centro, ou mesmo cidades limítrofes. No Brasil, e mais especificamente em São Paulo, há subúrbios "clássicos", como Alphaville, e mesmo como se pretendeu no bairro da Patriarca, na zona leste, como D'Andrea cita em seu texto. No entanto, o que caracterizava nosso subúrbio era uma paisagem rural que vai até os anos de 1940, como bem nos conta José de Souza Martins em alguns textos e artigos. A migração de nortistas e nordestinos a partir dos anos de 1950 começa a mudar a paisagem dessas regiões (aqui estou pensando já na zona leste).  Calcula-se em mais de 500 mil pessoas o contingente de novos moradores de São Paulo, que vieram fazer funcionar, literalmente, o parque industrial.

Aqui eu penso estar o ponto fundamental. Note nas características dos que ocuparam os possíveis subúrbios de São Paulo: população de origem nortista e nordestina, trabalhador da indústria. Os primeiros se instalaram nas regiões do Tatuapé, Penha, Vila Matilde, Patriarca, etc. Nos anos 1970, ainda com migrações, começa de forma intensa a construção dos conjuntos habitacionais, ainda mais distante do centro. Relato dos primeiros moradores da COHAB II, onde resido, mostram as dificuldades que passaram. Ruas de terra, sem equipamentos públicos, transporte escasso. 

O tempo passou, as famílias cresceram, outros vieram. Houve organização popular com papel importante da igreja, nos bairros, sobretudo com as mulheres, donas de casa; e os sindicatos com os operários. Importantes conquistas que fazem parte do registro de várias teses, artigos, livros, mas que passam despercebidas por muitos dos mais jovens moradores da atual periferia.

Apenas para fechar a ideia: o morador do subúrbio, ao meu ver, era o sub-urbano. Isto é, o que estava fora do urbano, e que se deslocava até o urbano, a cidade, para trabalhar. Muitas vezes, na infância e até na adolescência, ouvia os mais velhos moradores destes bairros dizerem "vou a São Paulo" quando diziam que iriam até o centro da cidade.

Não coincidentemente o termo periferia emerge, apropriado pelos periféricos, no contexto do neoliberalismo, que também é o da globalização, com seu discurso de que não há mais fronteiras e todos podem acessar todos os lugares e todas as coisas. Estamos nos anos de 1990, recorte da tese.

Periferia, neste sentido, está incluída na cidade, é um "problema" da cidade, e o periférico compartilha dos valores, sente as consequências de estar na cidade, forma a cidade, mas está à margem, na geografia e nos direitos.

O discurso do neoliberalismo e da globalização se mostrou uma perversidade, pois as fronteiras nacionais foram de fato banidas para as grandes empresas, que espalharam suas plantas industriais pelo mundo e busca de menores custos na produção e maiores lucros, tudo legitimado pelo Consenso de Washington. As empresas entram nos países subdesenvolvidos com incentivos fiscais e afronta aos direitos trabalhistas, precarizando as relações de trabalho. Mas o discurso era: "vocês precisam gerar empregos, e pra isso têm de cooperar". Aos trabalhadores, se a precarização das relações trabalhistas e os baixos salários incentivavam a outras saídas, as fronteiras e barreiras continuaram existindo e até se reforçaram, com sérias tensões principalmente nas fronteiras de países "subdesenvolvidos" (posteriormente emergentes e em desenvolvimento) com os desenvolvidos, como é o caso na divisa do México com os EUA, ou mesmo quando latino americanos vão à Europa. Tanto que em momentos de crise, como a deflagrada em 2009, nota-se aumento dos casos de xenofobia e até mesmo a aparição de grupos e partidos nazistas, como na Grécia.

Mas se os trabalhadores não conseguiam ter o acesso fácil a todos os lugares e coisas, não escaparam da ideologia do "o mundo está ao alcance das mãos". Os valores do consumo em massa adentraram as classes desfavorecidas, e já não se tratava de conforto, mas de status, de inclusão. Logo de ostentação. Afinal, para ter sucesso é preciso estar incluído, e para estar incluído é preciso possuir.

Ao passo que a população passa a ter acesso (ao menos visualmente por meio de comerciais e vitrines) aos bens de consumo, muitos importados, também aumenta o endividamento das famílias e, consequentemente, os índices de inadimplência. A flexibilização das leis trabalhistas (precarização) e a instabilidade dos empregos agravaram a situação. A categoria trabalho perde força, e operário já estava em desuso. Os anos de 200 iniciam com desemprego e a predominância do setor de serviços - e a mesma instabilidade. 

OBSERVAÇÃO

Cabe aqui fazer um breve relato sobre as mudanças ocorridas na COHAB II. 

No início dos anos 1990, houve um aumento da aquisição de automóveis por parte dos moradores do bairro. Alguns edifícios tinham pequenos estacionamentos, outros simplesmente não possuíam. Por razões de segurança e zelo, em quase todos os condomínios começaram a ser construídas garagens individuais, por apartamento. Outros moradores mesmo não possuindo automóvel também aderiram à ideia  Após a construção, estes espaços foram utilizados de uma outra maneira: ao invés de colocarem a porta para dentro do condomínio, os proprietários a colocaram para a calçada e montaram pequenos comércios. Apesar da variedade de estabelecimentos comerciais, a maioria é bar. Aqui fica claro o aumento do consumo, ao mesmo tempo que o desemprego aperta, e é preciso se virar. Há que se dizer ainda: estas garagens foram construídas eliminando o espaço de recreação das crianças dentro dos condomínios. 

(Poderia aqui continuar na observação relacionando os acontecimentos político econômicos com o comportamento cultural, de um lado pelos coletivos e de outro pela proliferação dos chamados pancadões. O funk, porém, é algo que deve ser compreendido dentro de seu momento histórico. Não tenho fôlego pra isso em uma breve postagem, por isso paro a observação por aqui).

OS ANOS 2000: LULISMO E CONSUMO

O governo Lula, iniciado em 2002 e que dura até hoje com Dilma, teve como marca positiva a diminuição da dependência com EUA e Europa, através da chamada política Sul-Sul, e principalmente pela geração de empregos com carteira assinada e diminuição da desigualdade. Mas a inclusão foi via consumo, inclusive criando um novo termo para identificar e "valorizar" os pobres que consomem mais: nova classe média, que não é a classe média convencional e também não é as classes C, D e E. Ao fim, a cidadania continua sendo regulada, e não plena. Ela está vinculada a profissão e aos direitos da classe, ou ao consumo.

Para finalizar, cito trechos de um famoso rap dos Racionais, com algumas considerações:

Automaticamente eu imagino
A molecada lá da área como é que tá
Provalvelmente correndo pra lá e pra cá
Jogando bola descalços nas ruas de terra
É, brincam do jeito que dá
Gritando palavrão é o jeito deles
Eles não tem video-game às vezes nem televisão

[...]
Eles também gostariam de ter bicicleta
De ver seu pai fazendo cooper tipo atleta
Gostam de ir ao parque e se divertir
E que alguém os ensinasse a dirigir


Hoje, com as ações do governo, como a facilitação do crédito, etc., todos os lares já possuem televisores, os vídeo-games também se popularizam. Provavelmente o menino da periferia já tem sua bicicleta (se isto interessar a ele), e possivelmente seu pai também tem automóvel, que ele considera bem mais interessante que a bicicleta. 

Enfim, como nos apropriamos do contexto social, econômico, político, assim como das técnicas e tecnologias?

Creio que o momento é favorável para o debate na periferia, haja vista a movimentação de vários coletivos em movimentos, encontros e fóruns. Neste sentido, a tese de D'Andrea contribui e muito para o debate.

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Acima apenas algumas reflexões. O debate mesmo vai continuar no dia 29/05. Confira:


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