sábado, 29 de junho de 2013

Mais que 20 centavos e a tática da mídia

por Julio Canuto



NÃO FORAM APENAS 20 CENTAVOS

Não é preciso maiores apresentações, creio que todos estão acompanhando as manifestações que ocorrem no país. De início manifestações contra o aumento das tarifa em transportes públicos, o movimento cresceu, alcançando outros temas, outros movimentos, todos relacionados. A frase "não é por 0,20 centavos, é por direitos", vista tantas vezes em cartazes já era empunhada pelo Movimento Passe Livre (MPL), principal articulador e incentivador das primeiras manifestações desta onda de protestos que continua pelo país.

Até o dia 12 de junho, as manifestações eram retratadas pela mídia como atos de vandalismo - mas quem esperaria outra postura da nossa velha conhecida mídia. E de fato estações do metrô foram depredadas, assim como bancas de jornal etc. Tentando ver os fatos, com todas minhas limitações, via que o clima de enfrentamento passava a sensação de que havia alguma coisa errada em seu formato, pois como os manifestantes conseguiam fazer com que uma causa de interesse de todos, não ganhasse o apoio da população? Pensei que nenhuma mudança ia acontecer, infelizmente. Enfim, essa era a minha opinião: equivocada!

Mas o pior era ouvir alguns comentários do tipo: "ah, são vagabundos. Fazem manifestação à tarde. Não trabalham." Ou pior: "quem está manifestando não precisa de transporte público". Ora, se quem estava lá não usa transporte, quem seria? Difícil ouvir esses comentários, mas ironicamente respondia que estava comovido de ver os ricos e a classe média alta reivindicando direitos para os que utilizam o transporte público. 

O dia 13 de junho marcou uma virada em todas as análises, opiniões e até mesmo na cobertura da mídia. De maneira muito inteligente, o MPL fez questão de mostrar que estava "apenas" se manifestando. Coloco entre aspas porque manifestar é um direito, que no Brasil é considerado baderna pelos governos, consequentemente pela polícia; pela grande mídia, consequentemente pela massa. A Polícia Militar foi pra cima da população, mesmo com os manifestantes gritando "sem violência". E a ação da PM foi tão absurda que fez toda a revolta de boa parte da população aflorar, levando muitos às ruas e alargando as bandeiras. Aquela semana foi histórica para o país! Em várias cidades milhões apoiaram e foram às ruas.

As manifestações que se seguiram não eram somente de apoio à manifestação pela redução ou gratuidade nas tarifas, mas inúmeras outras reivindicações vieram à tona, com maior ênfase para os gastos públicos com a Copa do Mundo, em detrimento a Educação e Saúde. E daí para corrupção, reforma política etc.

Creio que o momento não poderia ser melhor: durante a realização da Copa das Confederações, evento prévio da Copa do Mundo, quando toda a imprensa mundial está em nosso território acompanhando os jogos. 

A mídia internacional mostrou perplexidade, já que até então o Brasil era visto como um país próspero, que rapidamente conseguia superar a miséria, diminuir a desigualdade, invejados por europeus, há anos em profunda crise. O jornalista Juan Arias, do espanhol El País, publicou artigo intitulado "¿Por qué Brasil y ahora?", que reflete muito bem essa perplexidade estrangeira, recomendo a todos (para ler CLIQUE AQUI).  

Uma das coisas que considerei muito interessante foi a resistência as bandeiras de partidos, que eram vistas no início das manifestações e depois desapareceram. De fato, o descontentamento com os partidos não é algo novo. Vários movimentos agregam militantes, mas em suas discussões internas não falam de partidos, embora discutam as questões de interesse coletivo. Pesquisas, como a realizada pelo IBGE lá em 1996 já apontava para a descrença e desconfiança que recai sobre os partidos, além de inúmeros outros estudos. Nada mais natural que neste momento de manifestação espontânea, de desabafo, os partidos também sofressem duras críticas.
Manifestantes em Brasília (imagem de lancenet!)

O governo agiu rapidamente, tomando medidas até polêmicas (CLIQUE AQUI para ter um resumo dos efeitos das manifestações nas ações dos governos, em matéria d'O Estado de S.Paulo)Os temas gasto público, reforma política, corrupção, sistema eleitoral, mobilidade urbana, educação, saúde entraram definitivamente na pauta dos brasileiros, nas discussões nos mais diferentes ambientes.

O mais importante para se observar, na minha opinião, é que a maioria absoluta dos manifestantes são jovens, criados e educados pós democratização do país nos anos 1980. Portanto entendeo tratar-se de uma relação crítica com o sistema político atual. Como muito bem lembrou o Prof. Aldo Fornazieri em artigo publicado no blog de Luis Nassif (e também neste blog), são filhos dos fracassos das gerações anteriores, pois se tivemos o maravilhoso movimento das diretas e, principalmente, a formação da Constituição Cidadã, continuamos sendo governados por muitos que estiveram durante muito tempo no poder nos tempos de regime militar, e ainda com as mesmas relações de poder (CLIQUE AQUI para ler matéria com pesquisa do Instituto Data Popular sobre o tema).

Podem falar que tudo isso é uma bagunça, que não há foco, que não há causa e outras bobagens mais. Importante é a experiência que estamos passando - e que a maioria está passando pela primeira vez - e que reverbera nas ações dos governos, que podem ou não serem apenas para conter os ânimos, mas que certamente sacudiu a tranquilidade dos que estão no poder. 

Neste ponto posso fazer um elo com a segunda parte deste texto.

A TÁTICA DA MÍDIA

Como citei rapidamente acima, o dia 13 de junho marcou a mudança na cobertura da grande mídia, até então contrária as manifestações.  Claro, pertencentes a um conglomerado que se potencializou durante os anos do regime militar ou nas mãos de políticos que fazem de tudo para manter as coisas exatamente como estão (ou estavam, sei lá). Assim, nessa lógica, aqui não existem manifestantes, apenas baderneiros e vândalos, quer sejam jovens estudantes, professores, sem terra, sem teto etc. Fora do país sim, existem manifestantes. Lá fora existe um povo civilizado, politicamente consciente, que sabe lutar pelos seus direitos. Essa é a imagem passada. Mas se você observar bem, lá também sempre houve confrontos, depredações, violência, e também manifestações muito criativas. 

Voltando as atuais manifestações, o dia 13 de junho foi marcado pela violência policial contra manifestantes (até então baderneiros) e também contra jornalista. Só da Folha de S.Paulo foram sete jornalistas feridos, alguns gravemente. E a partir daí a cobertura mudou. A PM foi duramente criticada, os editoriais e artigos passaram a ser favoráveis aos (agora) manifestantes. Creio que isso também impulsionou a ida de milhões de pessoas às ruas gritar "sem violência" e daí as mais variadas reivindicações. Ora, a mídia tem o poder de mobilizar. Porém, sua tática passou a ser a de separar manifestantes de vândalos, sempre citados como "pequeno grupo", ao qual se colocam desde os saqueadores das lojas, os que quebravam as sedes dos governos e casas legislativas, os que ateavam fogo nos carros das grandes emissoras e jornais. Repararam na estratégia? 

Lembremos de um outro episódio, ocorrido na França ha alguns anos: em 2005, dois jovens descendentes de africanos foram mortos em perseguição policial, tendo desencadeado uma revolta na periferia de Paris, trazendo à tona para o mundo a desigualdade entre as regiões ricas e as regiões que abrigam imigrados do Magreb. Os alvos foram os carros da polícia e carros particulares, chegando a aproximadamente 9.000 veículos incendiados em 19 noites. À época também tratado como atos de vandalismo, a queima dos automóveis tinha um significado simbólico fundamental, pois é um dos principais símbolos do "sucesso" em nossa sociedade de consumo, símbolos pelos quais somos avaliados. Para aqueles jovens, isso pesava. A queima dos automóveis era uma revolta e recusa àqueles valores, ao mesmo tempo em que uma manifestação da desigualdade. O apedrejamento dos carros policiais, mais do que consequências dos confrontos, tinha um conteúdo simbólico do descolamento da relação do Estado com aquela população, que a exemplo de nossas periferias, vêm na forma de repressão. À época, a população de imigrantes e descendentes somava 5 milhões de pessoas na França. 

Da forma resumida como foi apresentada, você pode se perguntar o que a revolta social nos subúrbios da França tem a ver com as manifestações no Brasil. Há pelos menos três características muito claras: a perplexidade com que a manifestação foi vista, pois até então a França era vista como um modelo de integração dos imigrantes; se revelou um quadro de profunda desigualdade social e de direitos; e se intensificou por todo o país (para saber mais,  CLIQUE AQUI e leia artigo de Ignácio Ramonet, jornalista do Le Monde Diplomatique, de 10/11/2005; ou AQUI para ver o conteúdo no Wikipedia).
Veículo da Record incendiado durante manifestações (imagem advivo)

Nossa grande mídia foi esperta. Fez questão de neutralizar o simbolismo da queima dos seus veículos, tratando simplesmente como atos de vandalismo. Não passaram aos seus milhões de leitores, ouvintes ou telespectadores que tratam-se de símbolos que também estão no alvo dos protestos, assim como as sedes dos governos. Óbvio que não dariam essa informação. A TV Globo chegou a apresentar um texto no qual se dizia favorável às manifestações, e que desde o início estavam cobrindo os acontecimentos. Isso porque muitos se reuniram próximos a sua sede em São Paulo. Fora isso, apenas retiraram seus símbolos dos microfones e passaram a fazer coberturas do alto de edifícios.

A mensagem é clara para a mídia: não adianta agora mudar o discurso, vocês não nos representam!

É preciso ficar atento aos movimentos de governos e mídia, esperançosos de que as coisas voltem ao lugar que estavam. Já está provado que de fato não foi apenas pelos 20 centavos, e que pode custar muito mais as instituições de poder.


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