domingo, 7 de julho de 2013

Agoniza, mas não morre...

por Julio Canuto

A entrevista a seguir foi publicada na Radio UOL em 06 de junho de 2013. Estava quase pronto para publicação neste blog, quando vieram as manifestações, e ai ficou no rascunho. Mas vale a pena retomar, pois trata-se da entrevista de um gênio do samba, um poeta e filósofo, mestre da cultura popular: Nelson Sargento.

Aqui Nelson Sargento fala sobre os morros cariocas, a atual condição do samba e o funk. Nelson não apela para um saudosismo do tipo "no meu tempo era bem melhor". Ao contrário, fala de maneira simples sobre algo bastante complexo, referente a memória nacional. Segundo o artista, os jovens "não têm conhecimento do que foi o passado". E sendo assim, as músicas comerciais "tocam",  "é o que ele [o jovem] mais ouve".

Pelas palavras do filósofo-poeta-sambista, entendo que por isso o funk está nas mentes dos jovens, muitos com mensagens de violência e ostentação. Esses, de fato, são os valores de nosso tempo, de nossa sociedade de consumo. O funk simboliza esse valor, ao mesmo tempo em que o reforça. É uma cultura! Se é fabricada (indústria) ou não, o que importa é que ele revela uma realidade de nosso tempo. São marcas de nosso contexto socioeconômico. 

Em outra matéria, publicada há um ano no Estadão, Nelson fez a seguinte observação: 
O progresso é um cidadão sem disciplina. As coisas vão chegando e vão mudando. Qual foi o primeiro instrumento de percussão? Foram as palmas. E das palmas ao nylon, quanta coisa aconteceu. Não adianta voltar ao passado. O mundo segue seu curso. Somos prisioneiros dele (Memórias de um Sargento. Site Estadão/Cultura, 08/08/12). 
Mas o que persiste? Penso que o samba, ou sua história, deveria ser estudado nas escolas como importante parte de nossa história nacional. É, antes de tudo, uma forma de sociabilidade, um forte símbolo da resistência popular. E mesmo que ele tenha se modificado ou pareça morto, como em belas composições de outro filósofo do samba, Paulinho da Viola (Argumento e Eu Canto Samba), ou do próprio Nelson Sargento, como a que serve de título para esta postagem (Agoniza, mas não morre),  ele resiste. Sobre isso, Nelson diz: "o samba não passa nunca porque ele não é um movimento, ele é uma instituição. E outra coisa: vai ser eternamente badalado"

Com vocês, Nelson Sargento:

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