sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Hannah Arendt e a banalidade do mal

por Julio Canuto

"O maior mal do mundo é o mal cometido por um zé-ninguém."




Tive o prazer de assistir, na tarde desta quinta feira, 15/08, ao filme Hannah Arendt (trailler acima), de Margarethe von Trotta. Não vou aqui entrar em detalhes sobre a obra da filósofa política Hannah Arendt, mas apenas deixar um trecho de artigo de Fred Kaplan, do New York Times, na tradução da Folha de S.Paulo, sobre o filme, que demonstra que o assunto ainda é polêmico:
Em maio de 1960, Adolf Eichmann --um dos últimos líderes nazistas do alto escalão ainda vivo, que tinha fugido para a Argentina após a guerra-- foi sequestrado por agentes do Mossad, levado de avião a Jerusalém e julgado por crimes contra a humanidade.
Refugiada judia alemã e autora de um livro famoso, "Origens do Totalitarismo", Hannah Arendt cobriu o julgamento para a revista "New Yorker" (seu livro foi publicado como artigo em cinco partes).
Ela apresentou dois argumentos provocantes. O primeiro foi que Eichmann não teria sido o maligno organizador dos campos de extermínio, mas sim um burocrata medíocre, "não um monstro", mas "um palhaço". Veio disso o subtítulo "a banalidade do mal".
O segundo foi que os chamados "conselhos judaicos" na Alemanha e Polônia foram cúmplices no assassinato em massa. Eles ajudaram os nazistas a arrebanhar as vítimas, confiscar bens e os enviar para os campos onde morreriam.
Arendt foi repudiada. Alguns dos ataques contra ela foram exagerados. Mas algumas de suas visões também, entre elas o retrato que traçou de Eichmann. Para Arendt, Eichmann teria cometido seus atos sem ter consciência e sem mesmo ser antissemita virulento.
No entanto, em 1957, na Argentina, Eichmann concedeu uma longa entrevista ao ex-oficial da SS Willem Sassen, na qual gaba-se de ter ajudado a redigir a carta que ordenou a Solução Final. "Não fui apenas alguém que recebeu ordens. Se assim fosse, eu teria sido um imbecil. Eu era um idealista."
Amos Elon, jornalista israelense que defendia Arendt, disse, na introdução à edição em capa mole do livro, que ela "tinha a tendência a tirar conclusões absolutas com base em evidências casuais".
A evidência casual da banalidade de Eichmann foi o depoimento carregado de clichês. Ele declarou que tinha apenas feito seu trabalho e Arendt acreditou nele.
Margarethe von Trotta dirigiu filmes sobre mulheres fortes, mas diz que não se considera missionária. "Não faço filmes para transmitir mensagem. Faço filmes sobre pessoas de quem gosto ou que me interessam. Mas, se existe uma mensagem neste filme, é que você deve pensar por si mesmo, não seguir uma ideologia ou moda. Hannah chamava a isso 'pensar sem corrimões'."
Atualmente, a questão da banalidade do mal é muito clara para quem tem algum contato com autores do pós guerra. O que me veio à cabeça, enquanto ouvia os argumentos de Arendt durante o filme, foi Adorno, já citado neste blog, sobretudo esta passagem do artigo A educação após Auschwitz:
“Aquilo que exemplificava apenas alguns monstros nazistas poderá ser observado hoje em grande número de pessoas, como delinqüentes juvenis, chefes de quadrilha e similares, que povoam o noticiário dos jornais, diariamente. Se eu precisasse converter esse caráter manipulativo numa fórmula – talvez não devesse faze-lo, mas pode contribuir para um melhor entendimento – , eu o chamaria ‘tipo com consciente coisificado’. Em primeiro lugar, as pessoas dessa índole equiparam-se de certa forma às coisas. Depois, caso o consigam, elas igualam os outros às coisas.”
O trecho citado estava na postagem "proposta de reflexão sobre a violência", no qual falava sobre a reação da opinião pública - quer queira ou não induzida pela grande imprensa - sobre um crime hediondo.  E a questão é ainda muito atual (creio que será sempre), quer seja quando falamos de um crime hediondo, praticado "sem qualquer sentido", e até mesmo quando falamos da forma de atuação das polícias e militares, quer seja no Brasil, no Egito ou outros países. A banalidade está quando alguém se torna coisa, enxergando os demais e a si mesmo como coisa (para falar de Adorno) recusando assim sua mais elementar característica de humano, que é o pensar (para falar de Arendt). Este ser que se recusa a pensar é o "zé-ninguém". Para alguns, o sujeito coisificado de Adorno age dentro de uma racionalidade, enquanto o "zé-ninguém" é irracional, o que os difeerencia.

O filme, porém, não chega a se aprofundar nesta discussão, mas sim nas reações que Arendt sofreu após a publicação de seu texto. Sua defesa é a síntese do filme, isto é, esclarecer que não se tratava de uma defesa de Eichmann, mas de uma constatação, diante do que foi exposto em júri. Aliás, as vozes histéricas que ecoaram em repúdio ao texto de Arendt na época, soam parecidas as que se propagam atualmente nas redes sociais, onde muitos que se julgam democráticos condenam pessoas pelo simples ato de PENSAR diferente do que os "democráticos" acreditam.

O filme, além de trazer um recorte de importante acontecimento histórico e da visão de uma das mais importantes pensadoras do séculos XX, provoca a reflexão para atitudes corriqueiras, que muitas vezes passam despercebidas, mas que podem revelam a intolerância que carregamos e a falsidade da igualdade que pretendemos.

É preciso pensar!
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Outra interessante resenha:

ZANIN, Luiz. A CORAGEM MORAL DE HANNAH ARENDT. ESTADÃO. 05/07/2013

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