terça-feira, 13 de agosto de 2013

O coco sincopado de Jacinto Silva

por Julio Canuto

A postagem de hoje é uma grande dica para quem aprecia a música popular brasileira, a música regional e para quem gosta de pesquisar sobre nossa música, manifestações culturais e artistas. 

Ha alguns meses, por ocasião da visita de meu primo Arnaldo, de Palmeira dos Índios, Alagoas, recebi como presente um rico material sobre o coco, ritmo criado em Alagoas com influência africana e indígena, dança de roda e cantorias, tradicionalmente executado com ganzá, surdo, pandeiro e triângulo, mas também com violão, cavaquinho, sanfona, etc. 

O material que ganhei de presente contém os cocos de Jacinto Silva (de Palmeira dos Índios, AL). Recebi dois CDs, um com a participação do artista no programa Ensaio, da TV Cultura, e outro com as músicas de Jacinto na mesma sequência do trabalho de Luciano José, intitulado Jacinto Silva - as canções, publicado neste ano de 2013 pela Imprensa Oficial Graciliano Ramos (Maceió).

Jacinto é um dos grandes coquistas do sertão nordestino, o mestre do coco sincopado, embora sem grande divulgação no sudeste e sul do país. Para que todos o conheçam um pouco e para aguçar a curiosidade, segue alguns trechos da introdução do livro, de Luciano José:

...Jacinto era um artista que expressava em sua obra uma variedade linguística falada de modo predominante no Brasil, ou seja, a fala popular (coloquial) , usada espontaneamente pelas camadas subalternas e marginalizadas da sociedade. Para demarcar sua posição geográfica, seu grau de instrução, seu papel social, sua identidade cultural, sua religiosidade, desenvolvia suas composições utilizando-se da língua que aprendera com os falantes de seu meio (os parentes, os vizinhos, os camaradas de boêmia, o povo da sua região). Jacinto, com toda a carência de formação existente, possuía um conhecimento implícito e intuitivo da língua portuguesa a ponto de elaborar sentenças compreensíveis ao ouvinte, embora diferentes da variedade linguística padrão adotada como modelo ideal, considerada "correta", "irretocável", "bela". Mesmo que pontuasse suas narrativas com expressões típicas de sua região e de sua gente, era capaz, no dia a dia, de falar uma variedade linguística usada pelos segmentos privilegiados da sociedade brasileira.

     A forma de entoar as palavras com seu canto e a experiência de artista que adquiriu em espetáculos circenses o facultavam a imprimir na forma de composição e de interpretação o universo do circo, ou seja, era capaz como cantador de dividir a canção de tal modo dentro do ritmo, que se transformava em um mestre das firulas e malabarismos vocais. O aspecto surpreendente e performático de suas apresentações deixava as plateias estarrecidas pela diversidade do canto: o público esperava uma coisa e imediatamente surgia outra, diferenciando-se da sequência anterior. Seguindo os passos da escola jacksoniana, Jacinto conseguia se firmar com seu estilo particular no momento em que desafiava o tempo, introduzia divisões e quebrava o canto para alongar ou comprimir a métrica.

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     Ao popularizar o coco sincopado - gênero musical que fundia trava-língua com pique de embolada -, Jacinto conseguiu desenvolvê-lo de forma complexa e sofisticada, tanto no modo de compor como na forma de interpretar. Usando uma divisão rítmica peculiar, interpretava canções que possuíam sutis armadilhas capazes de enrolar a língua daquele que não tivesse o talento típico dos emboladores.
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     No texto O desmantelamento que constrói de Gilson de Oliveira, o autor apresenta uma explicação de Jacinto sobre o estilo trava-língua. Tratando do tema, Jacinto esclarece que "esse nome trava-língua foi extraído das cantorias, mais precisamente daqueles em que os repentistas procuram complicar a vida dos desafiadores, através de rimas raríssimas e estruturas poéticas complicadas, como a sextilha".
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     A versatilidade de Jacinto era constatada no momento em que dominava vários ritmos e estilos, como marcha de roda, coco, embolada, baião, forró, xaxado - todos conhecidos do Nordeste como música de terreiro - e construía composições que relatavam o ambiente sociocultural da sua região, o cotidiano do homem da Zona da Mata e Sertão, dramas existenciais de todo tipo e a paixão pela festa, pela diversão e pela mulher.
     Tendo sido um dos últimos herdeiros de uma musicalidade elaborada por antigos cantadores, Jacinto se notabilizou pelo grande poder de improvisação, pela criação de um canto claro e repleto de contratempos, pela introdução, na música popular brasileira, de várias modalidades de coco, e por gerar uma obra alegre e cheia de vida." (p.14-17).

Para completar esta breve apresentação, a música Coco sincopado, com letra da música, seguida de nota de Luciano José, da mesma obra citada acima.



COCO SINCOPADO (Coco sincopado)

Jacinto Silva & Zezé da Lojinha - 1965

Eu vou cantar o coco sincopado
É de banda, quina e de lado
Vou ver se a minha língua dá
A minha língua nesse coco não bambeia
Se o coco é sincopado, eu vou sincopar

Eu já cantei coco trocado e quadrão
Só falta o coco sincopado
Eu vou sincopar,
Eu vou entrar com esse coco sincopando
Se é o coco sincopado o cantor tem que sincopar

Eu quero ver você sincopar esse coco
Esse coco eu quero ver você sincopar
Menina olha esse coco é todo sincopado
É um nó cego e bem dado para o cantor desatar

Nota: neste coco Jacinto lança um desafio para quem se atrevesse a cantá-lo. Caso alguém cantasse o verso "Eu quero ver você sincopar esse coco/Esse coco eu quero ver você sincopar" e não encaixasse as palavras e fonemas no ritmo, criaria um verso de pé quebrado. Jacinto o canta suprimindo fonemas no interior das palavras, cortando e desmantelando para construir uma sonoridade redonda e harmoniosa. Em dois momentos do verso a tônica recai nos termos em negrito: "sinparessecoco" e "essecoqueuquerovervôcesincopar". Há uma mistura de palavras que faz suprimir fonemas e marcar melhor o ritmo. Segundo o poeta popular e pesquisador José Alves Sobrinho, em seu livro Cantores, repentistas e poetas populares, o trava-língua é um mote de pronúncia difícil que o cantador traz decorado para forçar o parceiro a gaguejar. Foi criado por Firmino Teixeira do Amaral na década de 20 e teve continuidade em Aderaldo Ferreira de Araújo (Cego Aderaldo), cantador repentista e poeta popular de muita fama. Atualmente se encontra em desuso, mas uma geração de novos cantores (Herbert Lucena, Valdir Santos, Silvério Pessoa, Khrystal, Zé Brown e outros) vem tentando recuperá-lo.

É um trabalho de registro histórico importantíssimo para a cultura nordestina, alagoana, e brasileira. Para adquirir:

FICHA TÉCNICA
Jacinto Silva: as canções
Organizador: Luciano José
Editora: Imprensa Oficial Graciliano Ramos
Preço: R$ 20 (384 págs.)

Contatos do autor: 8825-6825 e (82) 3421-5502
informação do site: http://www.imprensaoficial.al/index.php/noticia/65/desvendando-jacinto-silva-o-mestre-do-forro

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