terça-feira, 10 de setembro de 2013

A árvore sagrada do sertão ou a trilha do Curupira

por Julio Canuto


Umbuzeiro ou Imbuzeiro - Spondias tuberosa, L., Anacardiaceaeárvore de pequeno porte (mede até seis metros de altura) de copa larga (até quinze metros de largura) originária dos chapadões semi-áridos do Nordeste brasileiro, que se destaca por sombra e aconchego. Nos tempos do Brasil Colônia era chamado de ambuimbuombu, corruptelas da palavra tupi-guarani "y-mb-u", que significava "árvore-que-dá-de-beber" (embora haja a possibilidade de que seja, de fato, uma palavra de origem Kariri1 ). Dada a importância de suas raízes, foi chamada "árvore sagrada do Sertão" por Euclides da Cunha. Sua raiz conserva água e produz uma batata, que em época de grande estiagem, é utilizada como alimento. O Umbuzeiro vive mais ou menos 100 anos, e é um símbolo de resistência (wikipedia).


Seguindo os passos invertidos do Curupira, cheguei até a árvore, já centenária, localizada no agreste alagoano, no município de Palmeira dos Índios, que visitei neste mês de agosto. Terra onde meus pais nasceram e passaram a infância (saíram de lá muito jovens). 

Tenho tios e muitos primos por lá e eles me proporcionaram essa fundamental volta as raízes. Andamos por todos os territórios onde os familiares viveram. O umbuzeiro da foto acima é o mesmo que meu pai e tios brincavam quando criança. A casa ficava ao lado. Hoje, como se vê, a área está cercada, o umbuzeiro tem outro dono, faz parte da história de outra família. 

"Para andar para a frente, é preciso andar para trás", como certa vez disse o violeiro Paulo Freire sobre o folclórico personagem protetor das florestas e animais, o Curupira. Entender a si mesmo (andar para a frente) é conhecer suas raízes (andar para trás). 

A árvore é mesmo sagrada, ao menos para nós. É um símbolo da resistência dos familiares que lá permaneceram ou retornaram, mesmo com a quase irresistível migração a partir dos anos 1950, que desterritorializou gerações, construiu muros, fez muitos perderem o sentido, perderem-se. Familiares são raízes, que nutrem o ramo mais distante, mesmo em São Paulo. Fornece vida. Fortalece. 

Logo mais a bela árvore deixará de existir, assim como tantos de nós. Suas sombras deram o conforto necessário a gerações, seus frutos alimentaram. Árvores e pessoas, lugares, história, Cultura.

Naquele tempo a escuridão ia se dissipando, vagarosa. Acordei, reuni os pedaços de pessoas e de coisas, pedaços de mim mesmo que boiavam no passado confuso, articulei tudo, criei o meu pequeno mundo incongruente (1).

Mas naqueles dias a escuridão foi se dissipando. Agora é manhã!

Agradeço a luz dos familiares: tia Jovenília, tio Dionísio, prima Maria, primos José, Arnaldo, Ari e Daniel, suas esposas, filhos e filhas. 

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(1) RAMOS, Graciliano. Infância. Rio de Janeiro: Record, 2011. 46a. ed. revisada. p.21.


2 comentários:

Regiane disse...

Conhecer nossas raízes é algo que alimenta fortemente a nossa alma, nossa relação com as histórias. Agora ter este um pedaço do cenário que foi do "nosso passado" , em nossos dias presente é algo realmente emocionante que a foto do umbuzeiro por si dá conta de dizer.

Anônimo disse...

Brilhante e abençoado momento !
Eu gostaria de poder desfrutar de uma "aventura" semelhante > deve fazer bem. Mas tem gente, e eu estou incluida nesse meio, que so pode andar para frente porque o atras provoca tropeço.

Aqui na Europa esta arvore ja teria virado monumento, com acôrdo da velha e da nova familia. Mas é questao de valores que o "jovem Brasil" ainda nao considerou como devia.