segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Sejamos sinceros (isso é possível?)

por Julio Canuto

Cena do filme 1984.

GUERRA É PAZ
LIBERDADE É ESCRAVIDÃO
IGNORÂNCIA É FORÇA


Desde o dia 6 de junho de 2013, quando o jornal The Washington Post publicou a denúncia de Edward Snowden (ex-funcionário da NSA) com documentos que comprovariam que a Agência Nacional de Segurança (NSA) dos Estados Unidos, através do PRISM, seu programa de vigilância secreto, em parceria com as grandes corporações de serviços de internet (Microsoft, Google, Facebook,Yahoo!, Apple, YouTube, AOL, Paltak e Skype) monitora toda a comunicação de cidadãos, norte-americanos ou não, com acesso detalhado a vida das pessoas, bem como de empresas e governos, uma grande discussão tomou as mentes de pessoas no mundo inteiro. 

Nesta segunda feira, 30/09/2013, foi a vez do The Guardian informar que novos documentos indicam que NSA tem repositório de dados e armazena  por mais de um ano informações de usuários da web, independentemente de estarem sob investigação da agência (Link, Estadão, 30.09.2013).

O governo brasileiro, conforme as denúncias, foi um dos grandes prejudicados, tendo dados estratégicos monitorados pelo programa e agência, o que causou enorme mal-estar entre os governos dos dois países, a ponto da presidenta Dilma Rousseff abrir a 68ª Assembleia-Geral das Nações Unidas, em 24/09/2013, protestando contra a ação do governo norte-americano e defendendo o estabelecimento de um marco civil multilateral para a governança e uso da internet e de medidas que garantam uma efetiva proteção dos dados. 

Disse Dilma:

“Governos e sociedades amigas, que buscam consolidar uma parceria efetivamente estratégica, como é o nosso caso, não podem permitir que ações ilegais, recorrentes, tenham curso como se fossem normais. Elas são inadmissíveis.”

As tecnologias de telecomunicação e informação não podem ser o novo campo de batalha entre os Estados.”

“Este é o momento de criarmos as condições para evitar que o espaço cibernético seja instrumentalizado como arma de guerra, por meio da espionagem, da sabotagem, dos ataques contra sistemas e infraestrutura de outros países.” 

(para assistir o discurso na íntegra, clique aqui)

Apesar de considerar legítima a indignação brasileira, Barack Obama, prosseguiu com a costumeira empáfia e arrogância dos governos norte-americanos, com aquele velho discurso de cuidar dos interesses dos cidadãos, tentando justificar os absurdos cometidos:

"O mundo é mais estável atualmente do que cinco anos atrás, mas uma olhada nas manchetes de hoje indica que os perigos continuam".

E assim as coisas irão prosseguir, até a poeira baixar, novas "ameaças" surgirem e tudo continuar como sempre foi. 

Sejamos sinceros, leitores, ao menos neste medíocre espaço: alguém acredita que novas leis, marcos etc, vão mudar a conduta de quem detêm o poder? Digo mais: alguém acredita que alguma nação, tendo o controle das informações através de suas empresas, não usaria deste artifício para se antecipar as ações das outras nações?

O marketing já faz isso ha muito tempo e talvez você nem ligue. Já se deu conta de que os anúncios publicitários que aparecem em seu e-mail ou sites visitados, até internacionais, são de produtos que você procurou na web? Faça um teste: busque preços de um livro qualquer em alguns sites. Depois encerre a busca e vá visitar qualquer site e note que vai aparecer um anúncio publicitário do produto que estava procurando. Ou seja, seus hábitos de pesquisa foram rastreados e automaticamente trabalhados para vender.

Vejam bem. Não estou defendendo a espionagem. Longe disso. São práticas graves, crimes mesmo, quer seja contra cidadãos, empresas ou governos. Quero apenas alertar que leis, marcos, acordos e o que quer que seja assinado talvez não resolvam a questão. Minha visão é mais pessimista, assim como a de George Orwell, no clássico 1984, que previa o total controle dos sistemas totalitários. Na analogia aqui proposta, o sistema não seria a intensa repressão, como na obra, mas uma sensação de liberdade trazida com as novas mídias, redes sociais, blogs (como este), onde no conforto de nossas casas deixamos nossas vidas expostas, voluntariamente. A web, os cartões de crédito, a telefonia móvel, fazem hoje o papel da teletela, recebendo e transmitindo simultaneamente. São os olhos do Big Brother, de Orwell.

Aliás, as frases que abrem esta postagem e que formam o slogan do partido que governa a Oceânia (da obra de Orwell), não parecem semelhantes com as declarações norte-americanas; ao irresistível prazer de dividir suas preocupações, ideias e imagens nas redes sociais (o facebook pergunta: "o que você está pensando?"); ou ao entretenimento e/ou "produtos culturais" fabricados e inculcados pelas mídias? 

As tecnologias são fantásticas na mesma medida em que são perigosas. 

Para finalizar deixo artigo publicado em 25/09/2013 no El País, intitulado Obama, la tecnologia y la Pax americana, no qual José Manuel Sanchéz Ron faz uma interessante análise das contradições em discursos e ações do governo estadunidense: CLIQUE AQUI PARA LER.
Eva Vázquez. El País.


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