sexta-feira, 15 de novembro de 2013

A vida (parada) sobre rodas

por Julio Canuto


No início da noite de quinta feira, 14/11/2013, a cidade de São Paulo registrou o maior congestionamento de sua história: 309 km! Vejam, estou falando da cidade de São Paulo, e não das rodovias até o litoral.

O recorde anterior era de 300 km, em julho de 2013, o que indica que essa situação não é rara. 

De acordo com a CET, na cidade de São Paulo há 7,5 milhões de automóveis. Imensos congestionamentos indicam que com o devido planejamento conseguimos entupir toda a cidade, lançar toneladas de gases poluentes na atmosfera, provocar o mau humor de quem está nos auto(i)móveis e ônibus, mas também aos que andam pelas ruas. Parabéns à cidade construída para os automóveis. Isso deve ser um orgulho! Ou não?
Avenida 23 de maio, sentido centro, região do Paraíso, zona sul da capital paulista, na tarde de 14/11/2013.
Imagem de Reinaldo Canato/UOL
A situação é tão absurda, que a curva de congestionamento extrapolou o limite do gráfico da CET - Companhia de Engenharia e Tráfego!
A curva indica que a cidade teve aproximadamente 36% de suas vias monitoradas congestionada.
Folha de S.Paulo

Nas rodovias as coisas se complicam. Feriado prolongado é motivo para ir a praia. E lá se vão 5, 6 ou até 10 horas em trajetos que, em condições normais, são feitos em apenas uma hora. Esse é o lazer dos paulistanos. Aplausos!
Foto do leitor [da Folha de S.Paulo] Marcos Migoto mostra a situação da rodovia Oswaldo Cruz [que interliga Taubaté e Ubatuba] hoje pela manhã [15.11.2013]. Estrada apresenta neste momento trânsito lento em toda sua extensão.
Quantas horas de sua vida o paulistano perde dentro de um carro? Alguém já tentou fazer essa conta?
Tudo era cheiro de gasolina, gritos descontrolados dos jovens do Simca, brilho do sol reluzindo nos vidros e nos cromados e a sensação contraditória de confinamento em plena selva de máquinas concebidas para correr. 
O Leonardo Cruz, na Folha de S.Paulo, lembrou muito bem do conto de Julio Cortázar, intitulado A Autoestrada do Sul. "Na fantasia do autor argentino, o congestionamento dura meses, e motoristas e passageiros se conhecem, se amam, têm filho e morrem em meio aos carros parados." Ai está uma ótima dica para quem já sabe que ficará horas parado no congestionamento da volta. Compre e leia. Quem sabe o turista abstrai da situação e pensa que tudo aquilo é ficção? Deve aliviar.

Os aeroportos também ficaram lotados. Todos querem viajar. Será que ninguém quer descansar?

Eu, que já não dirijo, também desisti de viajar em feriados prolongados. A cidade, hoje sem congestionamento, torna-se muito melhor. Em São Paulo é fácil tornar-se misantropo. 


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