sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Pula o Muro, Nobel

por Julio Canuto

Aula de anatomia de Santiago Ramón y Cajal (centro) em 1915. / ALFONSO. 
Ilustração do artigo ¿Y si la ciencia no es eso que tú crees?, na página Sociedad, do El País.

Com algumas semanas de atraso, comento neste espaço a atitude de Randy Schekman, ultimo Nobel de Medicina, ao criticar em artigo ( no jornal The Guardian, a tirania das maiores revistas científicas: Nature, Science e Cell.

Segundo Schekman, as revistas científicas de elite distorcem o progresso científico, exercendo uma tirania que desfigura a imagem da ciência, suas prioridades e funcionamento. Com isso, anunciou que nunca mais irá publicar artigos nestas revistas, o que causou grande impacto no mundo científico.

Schekman não é o primeiro a rebelar-se contra as "revistas de elite". O biólogo Peter Lawrence, também nobel, adotou postura semelhante ha dez anos. Ambos publicaram muitos artigos nessas revistas, porém a decisão de Schekman de trazer o assunto à tona no momento em que recebeu o nobel tem a intenção de fazer o assunto chegar à opinião pública.

Schekman está na verdade criticando o que se chama "fator de impacto". A obrigação de ter artigos publicados nessas revistas é uma obrigação para a evolução profissional dos cientistas, porém a admissão dos textos estão sujeitos a considerações de políticas científicas, pressões e também contatos pessoais. As "revistas científicas de elite", pelo seu formato de publicação, alcançaram o poder simbólico que dá legitimidade a este ou aquele trabalho. E por aí é determinado o que é importante, relevante, na produção científica. A publicação torna-se um fim em si mesmo, assim como os prêmios também o fazem.

As revistas defendem o rigor e seriedade no processo de revisão e aceitação dos artigos.

O assunto é sério e não diz respeito apenas aos profissionais da área, pois a ciência rege nossas vidas em quase todos os aspectos, para validar, por exemplo, quais alimentos devemos consumir, qual informação devemos crer, ou quais medicamentos são confiáveis, como diz Javier Sampedro em artigo no El País, intitulado "E se a ciência não for isso que você pensa?" (clique no título para ler), que serviu de base para este texto.

Por fim, Schekman, que tem sua revista eletrônica, defende as publicações científicas abertas como forma de "estimular uma nova era na avaliação, apresentação e divulgação do progresso científico, ou uma ciência três ponto zero".

Confira o texto de Randy Schekman, "Por qué revistas como 'Nature', 'Science' y 'Cell', hacen daño a la ciencia" na íntegra, em espanhol, clicando AQUI.

Boa leitura e boas reflexões.

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