sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

"Rolêzinho"

por Julio Canuto


Esse tal "Chópis Cêntis"
É muicho legalzinho,
Pra levar as namoradas
E dar uns rolêzinhos.
(Mamonas Assassinas, "Chópis Cêntis").

Começo em tom de piada porque é assim que vejo a reação aos chamados "rolêzinhos". Até a presidenta Dilma convocou os ministros - não para dar rôle, mas... - para conversar sobre as preocupantes ações dos jovens da periferia paulistana.

Ah vá! Dar "rolê" em shopping sempre foi um dos principais programas dos adolescentes. Lembro que na minha infância lá mesmo em Itaquera os mais velhos (adolescentes) iam até o Shopping Center Norte dar seu "rolê". Depois, nos anos de 1990, quando abriram os shoppings Aricanduva e Penha (os primeiros da zona leste), eu também gostava de passear por esses espaços. Raramente para comprar algo, na maioria das vezes só pra passar o tempo, jogar boliche ou outros jogos e comer algo na praça de alimentação. E sempre em grupo! A diferença é que os tempos mudaram e parece que nossos governantes não perceberam, embora suas ações influenciem diretamente o comportamento dos jovens.

UMA HISTÓRIA ANTIGA

No início dos anos de 1990 ainda não tínhamos celulares, e o acesso a equipamentos de foto, áudio e vídeo não eram tão comuns nas periferias. Internet? Nem sonhávamos com isso. Também éramos atraídos pelas grifes. Comprávamos, na medida do possível. Também queríamos estar "na moda", impressionar as meninas. No início do plano real foi uma febre, mas com o passar dos anos as condições foram mudando. Certo dia minha mãe, ao responder meus pedidos por um tênis "de marca", me respondeu dizendo que me daria, mas que aquilo era uma besteira, pois "onde você pisa com esse, pisa com qualquer outro", e que minha empolgação era simplesmente uma ilusão de propaganda. Sábias palavras! Mas a vida não era só passear em shopping, era também jogar futebol, andar de bicicleta, jogar vídeo-game, ouvir música, etc. Ah, também havia violência. E como! Tanto pelos assaltos, como pelos preconceitos. Quem não compreende, ouça Racionais MC´s. Mas nem se pensava nisso nos "rolês". 

Até tive a sorte de começar a trabalhar não para ajudar na despesa ou até sustentar a casa, como vários amigos faziam, mas apenas para comprar minhas roupas e custear meus passeios (ou...rolês!), e poucos anos depois, em outro emprego, me dei conta que pais de família trabalhavam ao meu lado e recebiam o mesmo que eu - para sustentar suas famílias! Foi um choque de realidade. Assim fui percebendo a barra que é pegar ônibus e metrô todos os dias, demorar horas para chegar no trabalho e em casa, perceber quantas horas eu tinha que trabalhar para pagar aquela camiseta ou tênis que todos tinham. Fui amadurecendo, ampliei minha consciência de vida e de mundo. Formei minha consciência política! Mas até chegar neste ponto eu já estava caminhando para o final da adolescência. 

O que quero dizer é que isso é apenas uma fase da vida, que envolve valores importantes para os adolescentes, é a fase em que enfrentamos o mundo, buscamos referências fora da família e queremos afirmar nossa individualidade, paradoxalmente através do que nos identifica com algum grupo. É diversão também. 

A ADOLESCÊNCIA É A MESMA, MAS EM OUTRO CONTEXTO

Os tempos são outros. Nossa economia mudou (menor desemprego, aumento de renda sobretudo para os que recebem menores salários, facilidade de acessar crédito), a tecnologia avançou (internet, vídeo e áudio em celulares), barateou, e por isso mais pessoas tem acesso aos equipamentos que antes nem sonhávamos. 

Atualmente, em tempos de vida virtual e real, as redes sociais são centrais na vida dos jovens. Hoje os jovens ficam mais tempo em casa do que antes, pois os lares tem mais atrativos eletrônicos.

Em julho de 2012 escrevi neste espaço sobre as redes sociais (quando as abandonei):
Na verdade, penso que muitas pessoas acabam se revelando.  Sentem uma necessidade de serem vistas, assim como no noticiário das chamadas celebridades. Sim, elas publicam algo do tipo: "Saindo do trabalho. Agora é encarar o transito e depois relaxar no conforto da minha casa". Ou: "passeando com meus melhores amigos". Diga pra mim: há necessidade de comunicar a uma rede de pessoas (algumas tem mais de 1.000 "amigos") que você está saindo do trabalho e vai enfrentar trânsito em São Paulo? Ou se está saindo com amigos e comunica a todos, o que significa? Que todos estão convidados a ir também? Passa o endereço, pô.  E finalmente, quando aparecia alguma discussão que pensava valer a pena, virava um FlaxFlu (Pula o Muro, 28/07/2012). 
Pois é mais ou menos a consequência disso o que está acontecendo agora. Muitos desses jovens conectados se tornaram celebridades das redes sociais. Possuem milhares de fãs, e começaram a frequentar os shoppings para se conhecer (Leia sobre a origem AQUI). Agora eles se reúnem para curtir, se divertirem. As grifes continuam exercendo o mesmo fascínio sobre os jovens, os shoppings, agora aos montes por toda a cidade, continuam sendo ponto de encontro e diversão. Os equipamentos públicos de esporte e cultura nada evoluíram para os lados da periferia, e até os campos de várzea diminuíram drasticamente com a especulação imobiliária.

Se antes reuníamos cinco ou oito amigos batendo na porta ou por telefone, agora eles podem reunir milhares pelas redes sociais. Seus celulares, comprados em várias prestações, possuem som potente e quase todos os jovens gostam de mostrar aos outros seus gostos. É a auto afirmação.

Dilma, qual é o espanto? É a classe C! Mas não se preocupe, não há nenhuma conotação de ativismo político nestes atos. É pura diversão (Leia: "Rolezinhos for dummies", de Bárbara Gancia). 

Será que as manifestações de junho de 2013 causaram algum trauma em nossos governantes? Isso me surpreende, pois pouquíssimas reivindicações foram atendidas. 

DISTORÇÕES
João Montanaro. Publicada na Folha de S.Paulo, em 18/01/2014.

Mas claro, há sempre quem dê outras interpretações aos fatos. Por isso, quero deixar claro quatro pontos que estão em muitas opiniões de colunistas, "especialistas" e comentaristas e que são, na verdade, distorções:

1. Pensar que todos os jovens da periferia participam do ato, pensam iguais, possuem os mesmos gostos e desejos, etc. Nunca foi assim e nunca será. Há uma grande quantidade de jovens que não participam dos rolês e preferem outras atividades. As pessoas são criativas e mesmo em bairros com pouquíssimos investimentos sociais do poder público, criam, e manifestam-se culturalmente de várias formas.

2.Tratar uma questão comportamental como policial. Sobre isso, deixo trecho de artigo da Revista Latino Americana de Psicopatologia Fundamental.
Nota-se o paradoxo que permeia o processo: por um lado, o ideal de ser um – indivíduo indivisível e autodeterminado – conforme preconiza o ideário da modernidade. Por outro, a necessidade de reconhecimento pelo tribunal das redes de relações que compõem cada contexto, o desejo de pertencer a um corpo social, a fim de conquistar um sentido para o próprio corpo, legitimado pelo olhar de vários outros. A tensão daí resultante descreve o impasse experimentado pelo sujeito adolescente na contemporaneidade, o que não deixa de ser, em última instância, um conflito presente para todo ser humano que participa deste momento histórico. Reverberações deste conflito podem ser vistas, por exemplo, na ênfase dada, ultimamente, a temas como realização pessoal e inserção social no discurso de adolescentes e jovens. Os jovens, neste sentido, servem como indicadores de conflitos presentes no corpo social do qual participam. [...] Hoje, é preciso participar do circuito de produção e consumo, apropriando-se de seus índices (produtos, tecnologias, qualificações) a fim de conquistar (e manter) o estatuto de cidadão (Hobsbawm, 1995, p. 262). (MATHEUS, T.C., 2012, p.84-5).
Portanto, ao invés de partir para a repressão como se fossem seres estranhos à sociedade, seria bom compreender este comportamento e o que tem a ver com os valores atuais. 

3. Politizar o que não tem qualquer conotação política reivindicatória. Se outras ações com o mesmo nome ganharem corpo e tom de protestos isso não tem nada a ver com os originais "rolêzinhos". Um dos organizadores chegou a declarar na Folha de S.Paulo: "Não perco meu tempo em manifestações, os políticos vão continuar roubando". Definitivamente: os "rolês" dos jovens da periferia não estão fazendo qualquer reivindicação, seja por direitos ou denúncias de preconceito. O objetivo é apenas diversão.

4. Os jovens que fazem o "rolêzinho" são baderneiros e querem promover arrastões. Toda situação que reúne multidão pode haver tumulto, quer seja em um estádio de futebol, em um show musical, ou mesmo em eventos organizados por esses mesmos shoppings quando levam famosos em suas campanhas de marketing, que também atrai milhares de pessoas aos espaços e nem por isso os seguranças e lojistas agem com desconfiança, acionando a PM e gerando tensão desnecessária. Possíveis atos de vandalismo ou furtos nas situações descritas acima ou nos "rolêzinhos" são exceções, não regra. Aliás, os departamentos de marketing destes centros comerciais já deveriam estar tirando proveito dessas concentrações. 

Enfim. Creio que falta uma certa leitura crítica da realidade. Me parece que muitas pessoas adquiriram obsessões, dentre as quais a sensação de insegurança de que falei na postagem anterior. Isso sim é perigoso. Muitos já defendem abertamente a repressão a estes jovens.

No meio desta confusão de opiniões, cheguei a me surpreender com a lucidez do ex-governador Cláudio Lembo, publicada no Painel, da Folha de S.Paulo.
O ex-governador Cláudio Lembo (PSD) critica a reação aos "rolês". "Isso não é problema de polícia. Os jovens não estão fazendo nada de errado", diz.Lembo diz entender que o shopping é um espaço público e que sua administração não pode escolher quem entra. "Está na Constituição", sustenta.O ex-governador se divertiu ontem com o jovem que disse à Folha ter beijado 16 meninas num "rolê". "Isso passa. E os jovens vão continuar a ir ao shopping para beijar." (Folha de S.Paulo, 16/01/2014).

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