segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Tempo livre. Você tem?

por Julio Canuto


No dia 21 dezembro de 2013, o jornal o Estado de S.Paulo publicou dois artigos e uma entrevista que tratou de tema já bastante comentado neste blog: a relação tecnologia, trabalho e tempo livre. Como pano de fundo, outras questões bastante complexas, tais como acumulação, qualidade de vida, desenvolvimento, vida em sociedade, etc. 

No jornal, a discussão foi provocada após a morte de Mita Diran, redatora de publicidade da Young & Rubican da Indonésia, que morreu após três dias de trabalho ininterruptos, mas também cabe as mortes de trabalhadores nas obras para a Copa do Mundo e se estende sobre outras questões de nosso tempo, como o consumismo, a violência e nossas relações fragmentadas.

PRODUTIVIDADE COMO VALOR

No artigo de Sérgio Augusto, a principal observação é a de que a produtividade se tornou um valor de nosso tempo, aparecendo como uma espécie de auto desafio de trabalhar cada vez mais, quer seja em subempregos, frilas ou não. Centrando sua análise sobre os efeitos no indivíduo, Augusto recorre a Tim Kreider, colunista do The New York Times, que fala sobre a produtividade como preenchimento ao vazio existencial.
A presente e histérica sobrecarga de afazeres, salienta Tim Kreider, nem sempre é uma necessidade ou uma inevitável condição de vida; é uma opção, voluntária ou aquiescente, alimentada por uma espécie de consolo existencial, um antídoto contra a sensação de vazio e a solidão. Uma agenda cheia, ainda que de compromissos tão ou mais dispensáveis que a maioria das ligações feitas ou recebidas pelo celular, é uma anfetamina espiritual, um placebo que nos incute a ilusão de que afinal não somos tão prescindíveis e insignificantes assim (Sérgio Augusto. Anfetamina espiritual. Estadão, 21.12.2013).
Mas este excesso de atividades não se refere apenas ao trabalho, mas também no tempo livre. Viagens, bares, academias, esportes. O mundo atual requer que estejamos sempre em movimento. Também as crianças estão sempre ocupadas, seja com o ilegal trabalho infantil, seja no excesso de atividades extracurriculares. Soma-se a isso o bombardeio digital com a velocidade com que as informações nos chegam, bem como a constante troca nas redes sociais, onde "não se pode" postar que está desempregado ou sem fazer nada, pois todos devem se ocupar em mostrar que estão felizes...e ocupados.

Porém, é necessário verificar outras dimensões deste problema social.

DO TRABALHO PRECÁRIO À PRECARIEDADE PSICOLÓGICA

O sociólogo Elísio Estanque, em entrevista a Mônica Manir, afirma: "O que vemos nas duas últimas décadas é uma regressão à autêntica barbárie no mundo do trabalho". Sua crítica tem como foco o acúmulo de funções, a falta de segurança e a ausência de lazer.

Talvez o problema esteja nos planos político e econômico. O crescimento é o objetivo dos governos no mundo. Crescer é produzir e vender. Para produzir é preciso trabalhar, mas também comprar (dica: comprar, descartar, comprar). Portanto nada melhor que incentivar o consumo, reconhecendo neste ato a cidadania. Deste modo, os governos se esforçam para garantir o consumo, embora muitos dos direitos básicos ainda não sejam garantidos.

Se como dissemos acima, a produtividade é um valor de nosso tempo, ele só se realiza pelo consumo. De nada vale produzir e acumular, se não consumir (não sei porque, mas vejo uma ligação deste valores - produção e consumo em excesso - com a ostentação, sobretudo da juventude, e a violência nas grandes cidades). Até mesmo o lazer entra como consumo. É, talvez, a grande contradição de nosso tempo: a tecnologia, que promoveu o aumento da produtividade e, em certa medida, a eliminação das distâncias, ao que parecia fazer com que o Homem tivesse mais tempo livre, em verdade fez com que este fique cada vez mais ocupado. O conhecimento, que produz as maravilhas tecnológicas acaba também por gerar alienação. 
A inovação tecnológica tem sempre duas faces: a brilhante e a obscura. Há muito se vinha discutindo que, com a tecnologia, o trabalhador ficaria mais liberto do componente mais duro do trabalho, podendo usufruir de mais tempo livre. Mas a inovação tecnológica não tem acarretado consigo mais liberdade, mais autonomia, mais emancipação. Ao contrário: permite uma vigilância mais apertada. Ela cria uma precariedade que não é apenas objetiva e material, mas também psicológica, o que leva o trabalhador a recriar os instrumentos da própria vulnerabilidade. [...] Eu diria que o cartão de ponto, neste momento, está no bolso de todo mundo. Está no celular, no computador, nos imensos meios técnicos que as empresas possuem para controlar o que cada um está a fazer a cada momento (Elísio Estanque. Menos-valia, entrevista a Monica Manir, no Estadão, 21.12.2013).
O ritmo do trabalho para além dos limites físicos e mentais tem tudo a ver com a precarização (flexibilização) das relações do trabalho e a instabilidade. E pior: transformou-se em precariedade psicológica (dica: flexibilidade, fragmentação e carreira).

REFLEXÕES DE DOIS PENSADORES DO NOSSO TEMPO

Por fim, de um ponto de vista mais contemplativo, Ricardo Antunes comenta obras de dois grandes pensadores húngaros: György Lukács e István Mészáros (este quando comenta a obra do primeiro), em obras que analisam o ser social na vida cotidiana, tendo o trabalho uma importância central. Para os pensadores, e na leitura de Antunes, o novo século aprodundou a exploração do capital sobre o trabalho, com a privatização (como desmonte do que é público) do material e imaterial e a falsa noção do fim das ideologias e do maior tempo livre.
A destruição monumental da natureza, o aquecimento global, amplificado pelo pré-sal, tudo é muito diferente do que Schumpeter chamou de destruição produtiva, assemelhando-se ao que o filósofo István Mészáros rebatizou, há décadas, como produção destrutiva.No universo da reprodução societal, onde se desenvolvem as possibilidades mais intersubjetivas, próprias do convencimento, da interação (como a educação, a comunicação, o direito, entre tantos outros momentos da esfera reprodutiva), essas se tornam cada vez mais vilipendiadas. O que era - ou deveria ser - comum, de uso livre das comunidades, privatiza-se.Dizem também que as ideologias desapareceram, mas uma análise com um mínimo de atenção demonstra que a denominada tese do fim das ideologias é a expressão mais viva de como o verossímil é capaz de se tornar escandalosamente falso.E se isso já não bastasse, acrescentaram que o mundo maquínico, da era informacional-digital com seu "admirável mundo do não trabalho, da plenitude e da felicidade", faria evaporar as alienações e os estranhamentos originados no mundo industrial.[...]O filósofo húngaro recuperou a dialética do trabalho, contra as unilateralizações que reduziram o trabalho estritamente a sua dimensão alienada, típica do capitalismo; mostrou, entretanto, que a atividade humana efetivada pelo trabalho está presente na gênese do ser social, no seu ir-sendo e no vir-a-ser. O reino eurocêntrico de uma sociedade sem trabalho fica reduzido a um conto da carochinha (Ricardo Antunes. Com o suor do rosto. Estadão, 21.12.2013)
CONCLUSÃO
Com os três artigos, partimos de um fato isolado (a morte da redatora), passamos para as consequências dos atuais valores no comportamento dos indivíduos, pelas ações políticas e econômicas, sobretudo as relacionadas ao mercado de trabalho, até chegar a categorias mais amplas, que acompanham a história do capitalismo. 

Todas estas reflexões devem provocar outras. É preciso viver e aprender com o que vivemos.

No meu caso, que trabalho no poder público e com políticas públicas relacionadas ao trabalho e empreendedorismo fica a questão de até que ponto os atuais esforços pela disseminação da cultura empreendedora não se traduz, em verdade, na precarização do trabalho? É preciso estar atento a isso. Devemos saber medir com precisão até que ponto as novas relações de trabalho e o incentivo ao empreendedorismo são de fato benéficas, para o indivíduo e para a sociedade. 

Além disso, é importante valorizar o tempo livre. Entender que o tempo livre é fundamental para repensarmos nossas ações, também fundamental para a criatividade (o que melhora o desempenho profissional) e que não deve estar necessariamente atrelado ao consumo.

Enfim, são todas reflexões que devemos fazer pensando em nossa qualidade de vida, na qualidade do ambiente de trabalho e da sociedade. 

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