quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Triste Maranhão. Triste Brasil.

por Julio Canuto

A sensação de insegurança e impunidade somada aos valores de nosso tempo são combustíveis que facilmente se inflamam causando sentimentos de rancor e vingança generalizados. 


Na ultima semana veio a público imagens impressionantes da barbárie que ocorre nos presídios brasileiros. Começo pela generalização para lembrar a todos que isto não é um fato isolado. Cenas de barbárie, infelizmente, não são exceção nos presídios ou fora deles.

O fato é que nenhum governo, em qualquer esfera, se preocupa com o sistema prisional, postura essa respaldada pelo senso comum. Lendo os comentários das notícias sobre rebeliões, guerras de facções e mortes de presidiários, é nítido que grande parte da sociedade também não se importa com a situação. Pior ainda, alimentam um desejo de vingança e morte que, não duvido, muitos iriam a praça pública ver as decapitações se promovidas pelo Estado. Afinal de contas, todo condenado é bandido, e adentrando os portões dos presídios adquire categoria única independente do crime cometido, e por isso merecem as situações degradantes a que estão expostos, como se perder a liberdade não fosse uma grande e dura punição.

Faça você mesmo o teste (se ainda não fez): verifique qualquer notícia sobre sistema prisional ou crimes, mesmo os mais simples, e dê uma olhada nos comentários. As pessoas pedem morte, desumanizam os condenados, que se tornam seres descartáveis para o resto de suas vidas. Em boa parte essa reação se deve à sensação de insegurança vivenciada principalmente pelos moradores de grandes cidades, mas também pela sobrevalorização dos bens adquiridos - nesta época de cidadania via consumo. Então vejamos as duas situações, que são complementares:

1. Quando os autodenominados "cidadãos de bem" colocam os bens "conquistados com o suor do rosto" acima da vida de qualquer pessoa, isto é, quando deseja a morte de outro como vingança, ele age com a mesma lógica do que comete o crime: como ser coisificado. Há, portanto, um componente ligado ao consumo e ao valor social que o consumo adquiriu em nossa sociedade. Quem se lembra de noticias de uma guerra particular tem um bom exemplo da motivação dos presos para cometer os crimes (VEJA AQUI, basta apenas a cena da cadeia, mas se quiser o vídeo inteiro, clique AQUI); 

2. Pelo abandono do Estado, o sistema prisional foi dominado por presidiários, hoje organizados nas chamadas facções, com livre acesso a equipamentos de comunicação e que, em rede, comandam tráfico de drogas e outras atividades ilícitas nas ruas.

A sensação de insegurança e impunidade somada aos valores de nosso tempo são combustíveis que facilmente se inflamam causando sentimentos de rancor e vingança. A mídia sensacionalista contribui para esta sensação ao insistir na divisão da sociedade em "cidadãos de bem" e bandidos, como se fosse possível identificar visualmente possíveis criminosos e imaculados. Estabelecendo modelo para a categoria "do bem", acaba por estereotipar os potenciais criminosos (aqueles que estão fora do modelo), abrindo espaço para os preconceitos e alimentando a violência urbana.  Estamos perdendo vidas! E aqui não falo apenas das vítimas fatais da violência de ladrões ou policiais, mas das pessoas que se perdem sem que possamos vislumbrar qualquer recuperação, como aqueles que cometem crimes bárbaros, como os ocorridos no presídio do Maranhão.

Óbvio que nos casos em que sofri violência ou algum membro da minha família ou amigos sofreu senti raiva do agressor, até desejando a possibilidade de tê-lo nas mãos para me vingar. Porém, o Estado deve exatamente garantir que isto não ocorra. É preciso reafirmar que o Estado não existe para vingar as pessoas. Se assim fosse, o Estado perderia sua razão de ser, sendo mais fácil vivermos cada um por si.

Aqui chego no segundo ponto: a sensação de insegurança é também a sensação de viver cada um por si, como se as regras sociais estivessem suspensas. Neste contexto, a barbárie tem caminho livre para se manifestar. Esse sentimento pode vir do abandono dos sistema prisional, como citado no item 2 acima, mas também do descaso de governantes com o bem estar da população, negligenciando saúde, moradia, educação, saneamento, cultura, mobilidade. 

Quando, ha cinco dias, li na Folha de S.Paulo a explicação da governadora do Maranhão, Roseana SARNEY (veja postagem anterior) para a absurda violência que ocorre naquele estado, certifiquei-me que a falta de respeito ao próximo é a uma das causas de todas as violências. 
É um Estado que está se desenvolvendo, que está crescendo. E um dos problemas que está piorando a segurança do nosso Estado é que nosso Estado está mais rico, mais populoso também (Folha de S.Paulo, 10/01/2014). 
A governadora disse ainda que a violência no presídio de Pedrinhas é "inexplicável". Não chegou sequer a questionar o motivo de os presídios estarem superlotados; ou como presos com diferentes graus de periculosidade convivem nos mesmos espaços; como celulares, armas e drogas chegam até as celas. Nada. Nenhuma palavra. Se contentou em dizer que este não é um problema que ocorre apenas no Maranhão. 

E a pergunta que não quer calar: que desenvolvimento é este, governadora? Todos sabem que o Maranhão sempre se destaca negativamente por estar entre os Estados com piores indicadores sociais. Mas isto de fato não é um mal exclusivo do Maranhão. No início deste mês foi noticiado que apesar de terem SETE ANOS, 70% dos municípios brasileiros não elaboraram seus planos de saneamento básico e de resíduos sólidos urbanos, tendo bloqueado, a partir deste mês, os recursos do governo federal para programas nesta área.

Enfim, não é só de assaltos que morremos. Morremos pela falta de saneamento e de saúde, sofremos de desigualdade e morremos de medo, de raiva, de vergonha. 

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Matérias sobre as violências cotidianas. Clique no título para ler:

Municípios sem saneamento. O Estado de S.Paulo, 06/01/2014.


Sentença dupla. Folha de S.Paulo, 07/01/2014.

Proposta de reflexão sobre a violência. Pula o Muro, 26/02/2007.

Razão e Sensibilidade. Folha de S.Paulo, 18/02/2007.

"Mini-Auschwitzes espalhadas pelo território nacional". Observatório da Imprensa, 21/02/2007.

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