segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Ambulante de ritmos: Edvaldo Santana

por Julio Canuto

"Pessoal, primeiramente um bom dia a todos! Hoje trago novidade, trago qualidade..." 

É assim que os ambulantes começam suas vendas no expresso leste, linha 11 da CPTM que liga a estação Guaianazes, no extremo leste da capital com a estação da Luz, na região central da cidade. Na verdade nem se trata de novidade, trata-se de um produto com preço menor "que lá fora", e ainda com promoções que os marketeiros do "Shopping Trem" inventam na hora, dizem eles "para não perder a mercadoria". 

Pois nestes dias, fazendo brincadeiras sobre o discurso e artimanhas dos vendedores ambulantes dos trens, me lembrei de um texto que escrevi há quase nove anos sobre um artista que cantou sobre os trens e tipos que circulam e vivem no extremo leste de Sampa: Edvaldo Santana. Procurei o texto e me dei conta que não havia publicado neste blog. Pois agora tenho que fazer justiça publicando o texto que fala de Edvaldo, da cultura popular e as dúvidas de sua relação com as tecnologias, o perigo da massificação e a resistência. 

Logo em seguida coloco uma breve apresentação do artista e deixo uma relação de músicas, pois a melhor forma de conhecer o artista (para quem ainda não conhece) é pela sua arte.

VARIANTE
Retirado do blog Consciente Produtivo

São Paulo, segunda feira, oito horas da noite, região central. Saio da aula na faculdade de Ciências Sociais na rua General Jardim e vou até uma papelaria na Cesário Mota para tirar cópia de um texto. Como há várias folhas e apostilas aguardando na fila (ou pilha) sua vez de ganharem um par idêntico, vou passar o tempo no sesc consolação. Continuo pela Cesário Mota, dobro a Consolação e entro imediatamente na Maria Antônia, sigo e entro à direita na Dr. Vila Nova. Entro na sala (que insistem em chamar hall) de convivência e está ainda no início uma apresentação do Edvaldo Santana, o que para mim foi uma boa surpresa. Um bom músico, poeta popular e das popularidades, acompanhado de seu violão e de um outro músico com vários instrumentos de percussão que eram tocados um a um. A uma certa altura da apresentação, o artista fala de quando pegava o trem da linha variante para ir ao trabalho e começa um som meio samba, meio blues que fala deste cotidiano, passando em música pelas estações de Trinidad, Itaim, Calmon Viana, Itaquá, Aracaré, Engenheiro Goulart e Mané Feio. Provavelmente, muitos dos que estão ali nunca passaram por estes locais de parada, morada e descanso. Eu conheço um pouco.

Já ambientado, pego uma revista para saber da programação do mês. Vejo uma matéria que trata da cultura popular frente às novidades tecnológicas e o perigo da massificação, perguntando: sobreviverá a cultura popular?

Continuo ouvindo o Edvaldo enquanto vou pensando: sobreviverá? - sobrevive! – revive! – transforma! Ver o Edvaldo ali, tão simples quanto bom, é uma prova disso. 

No entanto, isto ainda não é o bastante. Fico com o tema da matéria na cabeça. Às nove saio, faço o mesmo caminho só que no sentido inverso, pego minha cópia, sigo para a faculdade e, já desencanado da aula onde há uma discussão teórica sobre o capitalismo monopolista de Estado, aceito o convite de um amigo para uma cerveja. Meia hora num papo leve, agradável e levanto, cumprimento – “até amanhã” – e sigo para a Praça da República onde entro no metrô, depois no trem e depois no meu apartamento, em Itaquera. Outro “Ita” bem distante, assim como Itaquá, Itapecerica etc.

Com o tema ainda na cabeça, lembro de várias coisas, desenvolvo raciocínios durante o caminho. Tenho em minha cabeça que se trata de um paradoxo: de um lado há os que vêem estas novas tecnologias apropriadas neste processo de massificação das culturas transformando tudo em comércio ou vendendo um tipo único, padrão, de comportamento e cultura; de outro, há quem enxergue estas novidades, principalmente a internet, como uma forma de democratização da informação e expressão. Neste último caso, uma das maneiras de viabilização seria o incentivo estatal para ampliação desta participação.

Sem querer entrar na questão de “a quem serve o Estado?”, digo que é preciso criar formas de ampliação da participação “por baixo” – entendendo o “por cima” como sendo os conglomerados que detêm a maior parte dos meios de comunicação –, estimulando a expressão popular, a cultura popular ou os modos regionais, pois a cultura se faz no dia-a-dia, em nossas experiências, no que temos em comum. A valorização da vida cotidiana é fundamental como estratégia de resistência a possíveis tendências de padronização, pois a troca, o conhecimento das tecnologias só faz as experiências aprimorarem, sem perder sua originalidade e peculiaridades. 

Poderia citar inúmeros exemplos em que, mesmo sem acesso às tecnologias, o povo inventou, improvisou e adaptou. O povo é criativo, e não acomodado. Vive numa corda bamba: abre espaços, improvisa, usa do “jeitinho” em meio às condições de vida que lhe é imposta. Imagine este mesmo povo tendo condições reais de participação. A ação dos movimentos populares, neste sentido, mostra-se fundamental.

Assim como o Edvaldo segue pela variante de Itaquá com rap, pagode, salsa, rock, reggae, xote, coco e blues, sigo eu pelas variantes de idéias na observação e vivência das ruas do centro e da periferia. Segue também você seus caminhos variáveis e outro acolá. Todos variando, desviando da estrada massificada e buscando, criando ou reinventando alternativas de percursos a quem nos acompanha. Melhores alternativas, porque reais e vivas. 

(Publicado no Recanto das Letras em 02/11/2005 e no Overmundo em 10/12/2006 )


EDVALDO SANTANA
Retirado do site Germina Literatura
Filho de pai piauiense e mãe pernambucana, nascido e criado em São Miguel Paulista, um bairro de nordestinos na Zona Leste de São Paulo, Edvaldo Santana conheceu a avó quando tinha 6 anos. "Meu pai era um operário ligado a movimentos políticos e, como a situação não estava boa aqui, ele levou a gente para o Piauí. Mas o sertão estava brabo também. E minha avó ajudou muito a gente", conta ele, o mais velho dos oito filhos, que na letra de Eva Maria dos Anjos diz ter uma foto da avó, "cabocla tupi", mas na verdade nem tem. "É liberdade de criação do poeta, me lembro dela vagamente", ele ri. 

(Teresa Albuquerque, Correio Brasiliense. Site de Edvaldo Santana).

A seguir minhas sugestões de músicas que misturam samba, blues, rap etc... e com ótimas letras. Mas tem muito mais, aqui coloquei apenas as que estão na Radio UOL e um clipe ao final. 

É só clicar nos títulos para ouvir.


Clássica! Onde Edvaldo conta a rotina da linha variante "que anda cheio feito cela de cadeia" com seus tipos:

Moça bonita, arroz na marmita 
No fundo querendo sair na revista 
Moleque no teto, bancando o surfista 
Maluco fumando cigarro de artista 
No hino do crente ambulante na fita 
Um rap, um pagode 
Uma salsa, um rock 
Um reggae e um xote 

Um coco e um blues 


E falando na linha variante, segue música que tem como título o nome da linha. Um maravilhoso blues, pura poesia que faz o encontro das dores comuns da gente do rio São Francisco e do Mississipi, por fim desaguando no Tietê para "Adonirar" o blues. A dor que imigra. Sente isso...

No Rio São Francisco navega o vapor
Que navegou no Mississipi
O Rio São Francisco desagua sua dor no Tietê
Variante da Estação do Norte
De seu Joaquim da Luz
Se eu pudesse aproximava os tempos
Adonirava o blues


Parceria com Lenine em letra que fala sobre o futebol na periferia. Deixa com a molecada:

Bola bem tratada pelo pé da molecada
De calo de trivela de cabeça na tabela
Bola namorada do Brasil na madrugada
Bola pela tela na janela da favela


Com a participação do Quinteto em Branco e Preto, continuamos no cotidiano periférico com um belo samba que fala sobre o ritual do mutirão.

Vou batelage chegado no feriado
Se você quiser chegar, é bem chegado


Na casa de Antônio, entre um beque, uma pinga e todas as sonoridades...

Noel com Cartola conversavam 
Sobre a arte que anda na contra mão 
Que vale a pena como uma antena 
Servindo apenas ao coração 



Outro clássico para aqueles que acreditam na paixão e na ciência. Sempre com a mente aberta. Ah, nessa vida eu agradeço os desenganos!

Me dedico se é preciso, sem pensar na recompensa
Sou daqueles que acreditam na paixão e na ciência
Vou beber mel pela fonte por onde meu faro alcança
pra entender o que se passa entre a paz e a vingança
minha arte não tem preço, minha busca não se cansa
eu sou bicho do mato com olhar de criança


Soneto de Glauco Mattoso, musicado por Edvaldo.

As armas, munições, armazenadas
São muitas vezes mais suficientes
Para extinguir da terra seus viventes,
E continuam sendo fabricadas 


Também clássico. Fala sobre apatia? Fala sobre a dificuldade do artista independente? Fala da indústria cultural? Ouça e pense...

Minha cabeça estava presente na execução
Mas meu coração não se conformava
No palco o jabá de mercado dá as cartas na comunicação
Na rua nenhum camarada, nada, nada nada


Outro belo blues em ótima parceria com Zélia Duncan falando sobre as desigualdades. Prepare-se para o soco:

Tem gente por ai vivendo que nem bicho 
Fuçando comida na lata do lixo 

...
Também tem gente por ai vivendo que nem gente 
Guardando o seu ouro a unha e dente 


Parceria com Rappin Hood. Total desapego com o qual me identifico totalmente.

É, pra viver é sempre cedo 
Na hora do fracasso só ficou 
Quem aprendeu lhe dar com o medo 
É, quem é que não quer sossego 
Parece que o sucesso demorou 
Para encontrar o seu segredo 


Com Chico César, reflexões sobre nossas violências.

Há mais de muitos anos 
O ódio no deserto 
Derrama sangue santo 
Na pele do universo 
Será que é só com a dor 
Que a gente é capaz de lembrar a paz? 
Será que se for por amor 
Alguém é capaz?


Refletindo feito maluco, vícios, trocas e a observação:

O amor é de graça
Vive no mundo sem fim
Pode ser vira lata 
E também mandarim


Acompanhado por este divertido ditado, uma boa letra e um belo blues. Também me identifico com essa música. 

Estava certo que eu era um sujeito
Que chegou no mundo para dar errado
Até pensava que fosse castigo
Por eu ter crescido lá no Lajeado
...
Eu acredito muito na franqueza
E na liberdade que me orienta
Não há motivo pra virar a mesa
Se tem confiança não há violência


14. Ruas de São Miguel

Para fechar, um clipe gravado em São Miguel Paulista. Como muito bem descreve Robson Timoteo em seu canal no youtube: "este blues com solos de berimbau retrata o lado lúdico da periferia, um local que apesar da violência e das dificuldades econômicas, ainda há espaço para amizades e para ser feliz."

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