terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Um rolê pelas ideias

por Julio Canuto


Para encerrar de vez, ao menos neste blog, esta conversa sobre "rolêzinho" que tanto tem ocupado espaços nos jornais, faço minhas ultimas considerações com base no que li e ouvi nas últimas semanas. Faço um passeio por essas ideias e volto para algo que sempre tratamos neste espaço, que a meu ver é a questão de fundo. 

CONTRADIÇÕES HISTÓRICAS

Fiquei pensando nesta contradição escancarada no extremo da zona leste paulistana:

1) Para o "rolêzinho", tratado como atividade cultural, tentam fechar o shopping center e oferecem o parque.
2) Para a arte falta o parque com a casa de cultura em funcionamento e oferecem o shopping para comprar e vender entretenimento que insistem em chamar cultura.
Loro Verz

São Paulo é mesmo o caos? Nas palavras do sociólogo José de Souza Martins, em artigo publicado no Estadão e reproduzido na postagem anterior, não é bem assim. Isso porque é possível enxergar fases de desenvolvimento da cidade, ou melhor, três fundações, cada uma substituindo a anterior.

A cidade que recebeu a todos, onde nasceu o manifesto antropofágico e o movimento modernista, que tinha a consciência de que a cultura estrangeira não deveria ser negada, mas também jamais imitada, como na proposta de Oswald de Andrade, que pretendia a devoração cultural das técnicas importadas para, ao nosso modo, reelabora-las, teve sua negação com a terceira fundação, que tem início nos anos de 1950 com a explosão da especulação imobiliária, período a partir do qual a cidade não se desenvolve, apenas incha. "A pós-modernidade de São Paulo nascia presidida pela lógica do caos, do rentismo especulativo sobreponde-se ao bem-estar de todos"Esse período não terminou. Aliás, segue cada vez mais forte, passando por cima de histórias, territórios e Culturas, massificando comportamentos. Por isso o título de "pobre cidade rica" no artigo de Martins, que alerta:
Amontoamento de prédios não faz uma cidade. Cidade é um modo de vida em que o redesenho e a racionalização do espaço deve tornar a vida mais fácil, mais simples. Deve agregar qualidade à existência, rapidez, conforto, bem-estar, alegria.
[...]
A cidade vem se tornando especulativamente mais rica e socialmente mais pobre (MARTINS, Estadão, 26/01/2014).

SAINDO DA SUPERFÍCIE, INDO AO FUNDO


Banksy
Consequência disto pode ser visto nas motivações e valores dos jovens nos "rolêzinhos", mas também nas opiniões baseadas no sentimento de insegurança, criminalizando qualquer ato estranho ao padrão. E o que mais me espanta é que até mesmo o poder público, que deveria demonstrar profundo conhecimento das mudanças sociais e saber identificar causas, também, submerso no imediatismo, no tempo de mídia, proponha paliativos. E assim ficamos: sempre na superfície. 

Não adianta construir ou reservar espaço para essas concentrações (os tais "rolezódromos") pois o sentido está no consumo e os shopping centers são os templos do consumo. Já disse: o comportamento desses jovens estão em sintonia com o comportamento da sociedade em geral, embora se estranhem. Em ultima instância compartilham dos mesmos valores predominantes em nossa sociedade, entre os quais "ter" e "consumir" são centrais.   

Um dos maiores pensadores da pós-modernidade, Zygmunt Bauman, em Vida em fragmentos - sobre a ética pós moderna, observa:
    Separadamente, lado a lado. Privatizada. Compartilhar espaços, mas não pensamentos ou sentimentos - e com a aguda consciência de que também é provável que não se compartilhe o mesmo destino. Não é necessário que essa consciência gere ressentimento ou ódio, mas ela sem dúvida propaga o distanciamento e a indiferença. "Não quero me envolver" é o que muitas vezes dizemos para silenciar as emoções rudimentares e cortar pela raiz os brotos de tão íntimas e profundas relações humanas do tipo "na riqueza e na pobreza, até que a morte nos separe".    Travas, ferrolhos e alarmes contra roubo cada vez mais engenhosos são o sonho de consumo do momento e um dos poucos setores em crescimento - não apenas por seus usos práticos reais ou supostos, mas também por seu valor simbólico: interiormente, eles marcam a fronteira do ermitério onde não seremos perturbados, enquanto externamente comunicam nossa decisão: "pelo que me toca, lá fora poderia ser um terreno baldio" (BAUMAN, 2011, P.361-362).
Este comportamento, característico do "estar-ao-lado", a forma predominante de integração na sociedade pós-moderna (1) tem a ver com valores de nosso tempo. Mas valores são moldados - mesmo que involuntariamente - por decisões políticas, bem como estas são moldadas por valores. Desse modo, saindo da observação do comportamento individual para uma olhar mais amplo, social, Bauman diz que:
   Os últimos anos tem sido marcados pelo lento mas implacável desmantelamento ou fragilização das agências que costumavam institucionalizar a comunalidade do destino; e pela substituição por instituições que expressam e promovem a diversidade desse destino. O efeito desse processo, pretendido ou não intencional, é a reformulação da comunidade (e da ação comunitária em geral), que deixa o papel de garantia de segurança pessoal que ela costumava representar e passa a significar o fardo e a perdição do indivíduo; uma carga extra para se suportar, acrescentando pouco à felicidade pessoal de alguém, mas alguma coisa de que não se pode facilmente se livrar, embora se pudesse gostar disso.    Cada vez mais nos confrontamos com a comunidade, as necessidades e causas comuns, apenas na qualidade de contribuinte; mas isso não é mais uma questão de nossa responsabilidade partilhada por - e de um seguro coletivo contra - contratempos e infelicidades de todos, mas uma questão de quanto custará prover aqueles que não podem prover a si mesmos. As reivindicações deles atestam o fato de que são parasitas, mas - maravilha das maravilhas - o meu (compreensível...) desejo de contribuir menos para a vaquinha, muito enfaticamente, não. É natural que o contribuinte queira pagar menos impostos. (Assim como um burro de carga quer que a carga diminua.) O resultado é que a qualidade dos serviços prestados coletivamente desliza encosta abaixo. E, então, todos os que podem pagar o preço de um barril compram um e saltam nele.(BAUMAN, 2011, P.363-364).
Cada um em seu barril, custe o que custar. Aí também reside a lógica do enriquecimento especulativo, que transforma tudo em mercadoria, no sentido de que o que é mercadoria, deve ser exclusivo. Neste ponto, qual o espaço para a arte questionadora, de transformação social? 

Banksy
Alexandre Falcão de Araújo, integrante do coletivo ALMA, em artigo intitulado "A gestão dos muitos afazeres do Teatro" aborda as contradições dos afazeres do teatro de grupo de São Paulo, a partir de suas observações do encontros de três desses grupos (da zona oeste, da zona sul e da zona leste) no Centro de Pesquisa e Formação do SESC, em 2012. 
    Os três grupos assumem a luta simbólica como campo de ação, disputando o imaginário colonizado pelo capitalismo. Nesse sentido, o desafio de se relacionar com as comunidades do entorno das sedes é o mesmo: lutar contra o imaginário dominante, reproduzido pelos veículos de comunicação de massa, que se manifesta tanto no funk tocado nas festas, quanto nos cultos das igrejas pentecostais. 
[...]   
Um dos pontos centrais da luta é a garantia das bases material e política, para que os grupos avancem além da subsistência precária e intermitente que é característica do atual cenário paulistano e nacional e tenham condições de manter um trabalho contínuo (ARAÚJO, 2012).
Os item 4 e 5 são centrais no artigo, onde se trata de dois pontos fundamentais, a saber, (1) meios para se sustentar: referente as dificuldades para garantir a sobrevivência material dos integrantes, manter a periodicidade entre espetáculos (já que prezam pela pesquisa) e conseguir patrocínios (muitas vezes pela radicalidade política das propostas); e (2) rememoração dos motivos de se fazer: referente as dificuldades de encontrar equilíbrio entre a produção cultural (meio) e a criação artística, atividades completamente diferentes em ritmos e estilos de trabalho.

Eis uma face perversa dos dias atuais: se por um lado, com o fim da estabilidade no trabalho e redução do Estado, veicula-se um discurso que preza pelo empreendedorismo e a transformação social via ação da sociedade civil, por outro fecham-se os caminhos de quem, agindo coletivamente, faz a crítica social objetivando a transformação social. Isto ocorre porque nada pode sobrepor a lógica do rentismo especulativo. O recado é claro: participe, mude, desde que não mexa com a lógica predominante. Desse modo, muitas das ações "culturais" nos diferentes territórios não tem por objetivo promover a cidadania, mas incentivar exclusivamente a maximização de lucro e acumulação, sem atentar para outras questões mais importantes e por isso com desprendimento do território, desprezando sua história, geografia, ambiente e...Cultura. Promove assim a massificação, insiste no exógeno, empurrado guela abaixo. A lógica social é: se não gerar muito dinheiro, se não tiver centenas ou milhares de espectadores, não deve ser incentivado; a lógica individual é: se não tiver as roupas de determinadas grifes, o carro mais potente e o corpo esteticamente padronizado, não tem sucesso, é um fracassado. Neste modelo a qualidade não importa, apenas a quantidade, pois os produtos se tornam obsoletos rapidamente. O valor está na produção; a reflexão nada vale. Assim passamos a entender a contradição colocada no início do texto.

Banksy
CONCLUSÃO: CAMINHOS E DESAFIOS

Aproveitar a cultura local como forma de desenvolvimento social, ambiental e até mesmo econômico é incentivar ações que provoquem a rede de saberes e produção locais, ligados direta ou indiretamente com o fazer artístico, valores e história locais. É cuidar do ambiente, de forma estrutural, de modo a promover um desenvolvimento sistêmico, sustentável. Ninguém precisa se tornar milionário para viver bem. Para as artes, seria bom criar formas de financiamento e/ou fundos fora da avaliação das grandes empresas, para desenvolvimento de projetos livres, além de boa estrutura física; para o público deve haver bons espaços culturais (e a cultura pode se apropriar de qualquer espaço) com fácil mobilidade, acessibilidade, comércios e serviços; do ponto de vista da economia, seria muito interessante que em toda a cidade houvesse ambientes em que moradores e visitantes pudessem ter pleno contato com as artes, sem ter que necessariamente se deslocar por grandes distâncias ou aceitar passivamente o mais fácil, o produto cultural pronto para consumo

Nada disso é de difícil realização. Há vários equipamentos públicos (escolas, CEUs, casas de cultura etc.), parques e praças que não são devidamente aproveitados. E mais importante: há muitas pessoas que agem coletivamente, transformam espaços, pesquisam e produzem arte com muita qualidade, mesmo com as condições precárias impostas.

José de Souza Martins fala de um tempo em que São Paulo era a casa de várias culturas, cada uma em bairros, até com divisões de classes internas. Não se trata de segregação. Longe disso. Trata-se de memória e identidade. O respeito às diferenças é cidadania. A massificação e a especulação formam o caos - além de gerar violência. 

Cultura não é entretenimento. Paliativos não podem servir de respostas para nossos conflitos. 

_________________________
(1) As formas de integração são: estar-ao-lado; estar-com; e ser-para. 

BAUMAN, Z. Vida em Fragmentos - sobre a ética pós-moderna. Rio de Janeiro: Zahar, 2011.


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Abaixo-assinado pelos espaços culturais de Itaquera




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