sábado, 22 de março de 2014

"Eu morri na Maré" e os corpos dilacerados

por Julio Canuto

Brasil, junho de 2013, estamos ha apenas uma ano da realização da Copa do Mundo. Festa? Bom, disseram que o tal grandioso evento deixaria um legado, não apenas na forma de modernos estádios - diga-se, descaracterizados da cultura nacional e padronizados ao estilo Europeu -, mas também com infraestrutura, melhores aeroportos, rodoviárias, melhoria na mobilidade urbana, no transporte público e uma série de outras coisas. Vemos, há anos, o Negado a boa parte da população, e não só pela restrição a participar da festa nos estádios pelo preço dos ingressos, mas também por ações truculentas da polícia em reação a manifestações, em retiradas de moradores de comunidades que até bem pouco tempo seriam regularizadas, conforme publicado neste mesmo espaço (clique AQUI para ler a postagem e assistir a matéria da ESPN). Para muitas pessoas, resta o sentimento de ser tratado à margem, não como participantes ou convidados da grande festa, mas como intrusos, gente que não deve ser vista, que incomoda. O desrespeito pela cidadania pode provocar reações perigosas.

O curta a seguir não trata exatamente disso, mas pode também ser pensado a partir desse contexto de preparação para realização de grandes eventos no país e em especial no Rio de Janeiro. Traz o contexto da violência a partir do olhar das crianças da favela Complexo da Maré, e é sempre bom registrar isso. De que forma o ambiente que mistura solidariedade e violência é percebido neste período de vida, de reconhecimento do mundo, de formação de consciência sobre o território, as pessoas, as instituições. A origem de traumas e bloqueios na sociabilidade, criatividade e percepção.

Recentemente vimos a absurda e revoltante morte de uma moradora do Morro da Congonha, na zona norte do Rio. Parentes da vítima, em reunião com o governador Sérgio Cabral afirmaram que se não fosse o vídeo feito por cinegrafista amador (talvez de um celular) esta seria "só mais uma morte". Triste é saber que talvez mesmo com o vídeo possa ser "só mais uma morte". O desabafo traz a tona a cruel realidade reproduzida cotidianamente. 

Em artigo publicado neste sábado, 22/03, no Estadão, Roseli Fischmann fala sobre o corpo dilacerado de Claudia Silva Ferreira, a vítima da brutalidade policial, como símbolo de uma sociedade dilacerada.
Como não ver que o corpo dilacerado é cada mulher, cada pessoa negra e pobre, dilacerada na violência que não há como prever a que virá, o tecido social dilacerado, a democracia dilacerada, a sociedade dilacerada? Direitos de cidadania, direitos humanos, tudo dilacerado?
[...]
Lorenz [Konrad Lorenz, Prêmio Nobel de Fisiologia e Medicina de 1973] advoga que a violência pode dominar o ser humano de modo simples e direto, se deixá-lo vencer. Mas a alternativa é dar à educação a importância que de fato tem, de trabalhar para que o ser humano saiba lidar com o mal que há dentro de si. No caso do corpo dilacerado, no Rio, junto foi dilacerado o futuro das crianças e adolescentes que ali estavam, parentes e amigos da vítima. Como estão reagindo crianças e adolescentes que veem na TV e na internet, repetidamente, a imagem da barbárie? Que educação receberam os responsáveis por colocar a mulher vitimada em um porta-malas, como carga barata, tão barata que nem se precisa cuidar de como a acomodar? (Roseli Fischmann. Corpo dilacerado. Estadão on line, 22/03/2014)
É disso que se trata.

SINOPSE

Este é um documentário sobre o impacto da violência sobre as crianças da favela Complexo da Maré, no Rio de Janeiro, contado a partir da visão delas. Foi realizado por dois jornalistas franceses, Marie Naudascher e Patrick Vanier, ambos radicados no Rio. Este vídeo faz parte do Projeto Reportagem Publica, que foi financiado por crowdfunding. Com o suporte de 808 doadores, a Agência Pública distribuiu 12 bolsas de reportagem para investigações independentes. Leia mais: apublica.org

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