quinta-feira, 1 de maio de 2014

Dia do Trabalhador

por Julio Canuto

Olha a Hora, de Hudson Melo.
UrbanArts: digital art & design
Como sociólogo e, portanto, pesquisador, deixo como mensagem para o Dia do Trabalhador um trecho dos registros de José de Souza Martins reunidos em A sociologia como aventura (Editora Contexto, 2013. 351 páginas), em que ele fala de seu trabalho como pesquisador e educador, em especial suas experiências nos cursos para trabalhadores no interior do Brasil. Martins é um grande estudioso do cotidiano e do homem simples, trabalha com fotografia e até mesmo com o onírico. No trecho a seguir, algumas questões sobre a pesquisa empírica, a relação entre pesquisador e pesquisado, técnicas de pesquisa e descobertas muito interessantes, como as palavras da cortadora de cana do interior de São Paulo que traduz de forma simples e exata a exploração do trabalho. 
    Aliás, a Sociologia é inviável sem a pesquisa empírica, pois é na pesquisa empírica que as inovações teóricas se propõem. Nenhum verdadeiro clássico da Sociologia criou coisa alguma sem a pesquisa empírica e mesmo o trabalho de campo. Nem Weber, tido indevidamente como modelo de sociólogo que dispensa o trabalho de campo. Do mesmo modo que os chamados resenhões do já dito pelos grandes sociólogos estão muito longe de constituir trabalho verdadeiramente teórico, original e criativo.   É verdade que no privilegiamento do trabalho de campo sempre se corre o risco de ouvir a pergunta difícil que ouvi certo dia, num povoado do Maranhão, de um homem simples que me observava curioso enquanto eu entrevistava crianças de uma escola: "Vem cá: além de bater papo com as pessoas, você trabalha?" Ou, pior ainda, quando fui procurado por uma jovem no barraco em que eu me arranchara, no mesmo povoado, e de sopetão perguntou ao grupo que ali se encontrava: "Cadê o cientista que chegou aí?" Fiquei entre preocupado com a possibilidade de que era mais uma observadora trabalhando para a repressão e feliz por saber que ali, nos confins do sertão, uma cidadã lúcida me tratava apropriadamente pela qualificação que eu tinha. "Sou eu mesmo", respondi, orgulhoso. Ela não teve dúvida: estendeu-me a mão aberta e ordenou: "Então, leia a minha mão!"    Mas há aí, também, a riqueza teórica potencial que na pesquisa empírica emerge da aguda consciência das contradições do vivido. Não poucas vezes, foi nos cursos que dei para trabalhadores, usando a técnica da pergunta que provoca respostas densas e esclarecedoras, e das respostas como ponto de partida do esclarecimento, que fiz descobertas sobre a concepção popular da realidade que podiam dar novo rumo ao meu trabalho. Num curso para cortadores de cana no interior de São Paulo, pediram-me para lhes explicar por que, tendo que trabalhar mais, ganhavam sempre menos, o que mediam pela crescente redução da capacidade de compra de seu salário. Disse-lhes que o nome disso era exploração do trabalho, embora achassem que eram explorados pelos vendeiros. E pedi a cada um que me explicasse o que o fazia pensar que era explorado. Uma cortadora de cana relativamente jovem, mãe de família, me explicou que sabia que era explorada porque quando fazia amor com seu marido, seu corpo doía. Mas seu corpo não doía quando estava cortando cana no canavial, no trabalho pesado de uma jornada inteira, de sol a sol. Era explorada porque seu corpo já não era seu: pertencia ao canavial. Nesse sentido, a própria fala de quem depõe, derivada da pergunta dirigida do sociólogo, raramente revela as dimensões ocultas e invisíveis, profundas, tanto da consciência do homem comum quanto do modo como ele vive e interpreta as relações sociais.Ao mesmo tempo, a pesquisa empírica em si mesma em nada contribui para descobertas e aprimoramentos teóricos senão com base na pesquisa teórica, na dialética de teoria e pesquisa. (MARTINS, J.S. Sociologia, ciência da esperança. In: A Sociologia como Aventura. Ed. Contexto, São Paulo, 2013. p.242-243)



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