terça-feira, 8 de julho de 2014

Liberdade para criar, liberdade para ver

por Julio Canuto


Em postagem anterior, falando sobre arte, criatividade e sociedade, deixei vários trechos sobre a obra de Fayga Ostrower, e no final citei Pierre Bourdieu, em trecho sobre a escola em um dos artigos reunidos em A economia das trocas simbólicas. Porém, uma leitura são várias leituras e na sequência disso algumas experiências me fizeram pensar na liberdade para criar e na liberdade para ver, conhecer. Descrevo aqui duas experiências. A primeira foi há dois meses, em 06 de maio, no Sesc Pinheiros, em São Paulo; a segunda foi em 15 de junho, no Museu de Arte de São Paulo - MASP.


HERMETO PASCOAL (SESC PINHEIROS, 06 de maio de 2014)

Sempre que assisto a uma apresentação de Hermeto Pascoal, volto a me surpreender (mesmo que isso pareça contraditório). A sonoridade de Hermeto e seu grupo nos faz ver no palco a presença e criatividade de uma pessoa que, aparentemente, não foi inculcada com as convenções sobre música e arte. O que vale é experimentar. A música se faz ao tocar, ao cantar. Pergunte qual é o estilo de Hermeto e ele responderá a você: música universal! E música é isso mesmo. Só pode ser isso. Música é ritmo, é harmonia, é melodia, é estado de espírito. E isso pode ser compreendido por qualquer pessoa que esteja disposta a conhecer, experimentar. Abaixo as simplificações dos rótulos.  

Documentário Os sons de Hermeto.


A INUSITADA COLEÇÃO DE SYLVIO PERLSTEIN (MASP, 15 de junho de 2014)

Uma coleção com o que Sylvio Perlstein foi reunindo durante 50 anos, e que o mercado não apostava. Perlstein não seguia tendências, tinha uma visão diferente sobre arte, gostava das criações que fugiam do banal:
Eu não sei o que é arte. Eu não sei o que é ‘bom’ ou não. Eu passeio. Eu flano. Eu não quero nada em particular. Eu não sei exatamente o que eu fiz. Eu não sei exatamente como tudo começou. Há coisas que me intrigam e me perturbam. Para que algo se ative, é preciso que seja enigmático. E difícil, também. Senão não é interessante. Não é excitante (Sylvio Perlstein).
São cerca de 150 obras, divididas em seis seções: Dada/Surrealismo; Fotografia Vintage; Novo Realismo/Pop Art; American Painting; Minimal Art; Arte Conceitual/Land Art/Arte Povera.

Sim, Perlstein esteve imerso no ambiente de artistas, acompanhando alguns deles. Mas além da preciosidade das obras expostas, a exposição vale ainda mais para se pensar a arte como relação, nunca como algo pré-definido e apreendido nas escolas. Pois é isso: a liberdade de criar (condição de ser humano) é também a liberdade de ver, liberdade de conhecer. Não se trata de uma ação possível apenas a quem tem um "dom", como muitas vezes se faz pensar, mas sim uma forma de estar no mundo. O que cria é o mesmo que duvida, conhece, investiga, vê, sem pré-conceitos. É para sair do MASP não apenas admirando o que lá está, mas para sair com a provocação de testar seu olhar, observar e pensar as coisas de maneiras diferentes.

A exposição começou em 06 de junho e vai até 10 de agosto. Não perca.

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