quarta-feira, 6 de agosto de 2014

O PARQUE

Leonardo André


Existe um blog do Instituto Moreira Sales - IMS - dedicado aos temas Arte e Cultura no ano de 1964, o ano do Golpe. O título desse blog é Em 1964 e lá me deparei com uma resenha de ninguém menos que Carlos Drummond de Andrade sobre o curta O PARQUE. achei tudo muito interessante e por isso resolvi postar aqui. Publico abaixo o vídeo (por incrível que pareça, está no Youtube) e a resenha logo abaixo.




O PARQUE* é um filme experimental realizado pelos alunos do Curso de Iniciação ao Cinema, idealizado, organizado, coordenado e levado, pela professora Maria José de Sant'Anna Alvarez, a uma escola pública secundária dos arredores do Rio de Janeiro.


Os alunos do curso tinham de 11 a 18 anos de idade. Aprenderam, com cineastas desinteressados, a construir um argumento cinematográfico e desenvolve-lo sob a forma de roteiro. Participaram da feitura do plano de produção o da rodagem da fita. As filmagens foram realizadas durante as férias escolares de julho, aos sábados e domingos, quando havia sol. Em cada sessão, era projetado, analisado e discutido o resultado da filmagem anterior, fazendo-se as refilmagens quando necessárias.



O curso de iniciação ao Cinema compreendeu cinco fases principais:



1. 1 mês de planejamento global do curso, elaborado pela professora, com a assessoria de técnicos;

2. 3 meses de preparação teórico-prática, abrangendo conceituação de cinema, técnica cinematográfica, direção e interpretação de atores, sob a forma de aulas, palestras, projeções de filmes e "slides" e debates em torno da exibição de copiões;

3. 1 mês de produção do filme exercício "O PARQUE": concurso e seleção de argumentos, escolha de locais, plano de produção;

4. 1 mês de filmagem, só em exteriores, com equipamento precário e emprestado, nas ruas, praças, estradas e favelas de pequena localidade;

5. 3 meses de montagem da fita, realizada com os meninos, na casa da professora, usando-se equipamento cedido por empréstimo. professores do curso acompanharam a filmagem, e a montagem, na qualidade de supervisores, integrando-se na equipe infanto-juvenil em igualdade de condições com os alunos. Revelação, cópia, sonoplastia, gravação, mixagem e trucagem de letras foram trabalhos pagos pela professora Maria José de Sant'Anna Alvarez a laboratórios e estúdios profissionais e duração de 8 meses.

"O PARQUE" custou a seus idealizadores -- Maria José e Reynaldo Alvarez -- dois anos de lutas e despesas totais que já ultrapassam, de muito, um milhão de cruzeiros. O esforço foi recompensado pela revelação de algumas vocações promissoras (como o fotógrafo de 17 anos, a desenhista da apresentação do filme, de 15 e o ator de 11), pela formação de uma consciência cinematográfica, pelo desenvolvimento do espírito crítico, da capacidade de iniciativa, do senso de responsabilidade e do interesse pelos estudos entre os ex-alunos do curso.



Repercussão: A Sessão do Conselho Nacional de Cultura e do Clube de Cinema do Rio de Janeiro. Local -- auditório do Ministério da Educação e Cultura. Quatrocentas pessoas. Êxito completo.

Exibição prévia na Agência Nacional. Projeção especial no Festival de Cinema de Teresópolis. Seis exibições pela televisão, no Rio. Duas na Bahia. Melhor da Semana da televisão carioca. A equipe recebe o troféu Walmap. Primeiro prêmio no Festival de Curta Metragem da Bahia. Ganhador em 1971 do Canadian International Amateur Film Festival em Ontario, Canadá.





* Vídeo e texto extraídos do canal de Igor Malvina no Youtube

O parque – por Carlos Drummond de Andrade**

1º Caderno, Imagens imprevistas

Quando me telefonaram dizendo que fosse ver na exibição especial o filme dos meninos de Jacarepaguá, tomei a coisa na brincadeira e prometi a mim mesmo não ir: já brincamos tanto, em tantos assuntos sérios, por que brincar também de cinema?
Então o filme, de sabido, apareceu lá em casa, levado pela televisão, e fez-se assistir durante 15 minutos e 37 segundos. Não contei no relógio esse tempo, que dá para a gente bocejar muito, e vira eternidade se uma coisa nos entedia. O jornal é o que marcou o período de projeção, pois na realidade, vendo se sucederem as imagens de O Parque, fui sendo conquistado pelo que via, e o tempo que senti passar foi o tempo emocional e humano da história do filme.
História bem simples, saída da imaginação de uma garota de 15 anos, mas que daria um conto admirável de Marques Rebelo, uma grande página de Rachel de Queiroz ou de algum outro mestre literário. Um menino vê chegar o parque de diversões e não tem dinheiro para frequentá-lo. Faz tudo por obter uns cobres; vai a ponto de vender o seu passarinho de estimação. Quando se aproxima do local, com o dinheiro no bolso, o parque já foi desmontado. Só lhe resta olhar com melancolia as marcas das estacas no chão, os cavalos do carrossel jogados em terra e o triste montinho de notas que não servirão para nada. Perdeu o passarinho e não teve o parque.
O filme… Para avaliar o filme é preciso saber como nasceu e foi feito. Uma professora inteligente, Maria José Alvarez, reparou no interesse pedagógico de ensinar um pouco de cinema a seus alunos do Colégio Estadual Brigadeiro Schorcht. O cinema é hoje uma parte da vida de todos nós. Levá-lo à escola, não apenas para ser contemplado, mas para ser vivido, é despertar estímulos, criar espírito de colaboração, entusiasmar, dinamizar. E foi o que aconteceu. Um curso experimental de cinema foi dado por três meses por profissionais. A equipe de alunos discutiu argumentos, compôs roteiro técnico, estabeleceu plano de produção, selecionou intérpretes. A filmagem aconteceu nas férias de julho do ano passado, a céu aberto, nas estradas e ruas de Jacarepaguá. O ator principal é um garoto de 11 anos. O diretor de fotografia tem 17. O desenho de apresentação é de uma garota de 15. Os atores trabalham também na parte técnica. E o filme, sem intuito comercial, é claro, e sem pretensão de obra de arte, é uma dessas felizes criações do talento natural a que não faltou vontade de aprender e de fazer mostrando o que se pode esperar da juventude em imaginação e trabalho, em poesia aplicada à vida.
Porque é um ato de poesia, O Parque, e vê-lo é ter contato com algo de puro e de vivo, que quer manifestar-se, e que o consegue através do caminho mais imprevisto; crianças fazendo cinema, com seriedade e intuição, com sensibilidade e poder de comover-nos. O menino que não entrou no parque entra em nossa alma.

** Publicado no jornal Correio da Manhã, em 31 de julho de 1964 / Biblioteca Nacional

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2 comentários:

PuLa O mUrO disse...

Ae, Léo. Grande retorno!
Abraço.

Julio.

Leoanardo André disse...

Quié isso, só fiquei um tempinho sem aparecer... rsrs

Abç

Léo