terça-feira, 16 de setembro de 2014

Brasil em números II: Território e População

por Julio Canuto


Em continuação a postagem de 2 de setembro, já com certo atraso, passamos a tratar dos temas do estudo "O Brasil em número", lançado pelo IBGE em 28 de agosto. Os dois primeiros capítulos falam de território e população. Para ser breve e, espero, atrair a curiosidade do leitor para o documento, deixo dois trechos dos artigos que compõem esses capítulos. Ao final, um curto comentário.

TERRITÓRIO 

...que potência é esta que se encontra em situação tão modesta nos indicadores de ordem social? Afinal, o Brasil se situa entre os principais países do Mundo e esta inserção não condiz com esse fato. Uma potência incompleta, periférica, apesar de todo seu dinamismo, com certeza, e, que apresenta contrastes tão acentuados, desigualdades socioespaciais tão profundas que, juntas poderiam anular todo o aparente crescimento econômico, recentemente conquistado. Tal desempenho, importa salientar, deve ser creditado, sobretudo, ao papel exercido pela enorme significância dos setores mínero e agrário exportadores da economia brasileira, ao peso dos variados minérios, dos grãos, das carnes e de outros itens na balança comercial nacional. Para resolver esta questão proposta, deve-se salientar que aqui entra o território, conceito basilar da Geografia e da mudança crucial na vida de qualquer nação, e, por conseguinte, da busca de uma melhor inserção do Brasil na geoeconomia e no jogo geopolítico mundial. A realização de reformas básicas que melhorem os indicadores sociais, democratizando a sociedade, possibilitando uma maior mobilidade social das classes mais marginalizadas, beneficiando toda a população brasileira, certamente tem que passar pela democratização do acesso ao território, pois afinal, uma verdadeira Nação se faz por meio da articulação do povo e de seu território. Reformas como a agrária, a urbana, a educacional, a da saúde são, portanto, imprescindíveis para a construção desse ideal, no qual povo e seu território constituem as suas maiores riquezas, estas que são o fundamento da Nação.

Marly Nogueira
Licenciatura e Bacharelado em Geografia pela Universidade Federal de Minas Gerais. Mestre em Geografia pela Universidade Estadual Júlio de Mesquita Filho – UNESP. Doutora em Geografia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Professora Associada do Departamento de Geografia da Universidade Federal de Minas Gerais Especialista nas áreas da Geografia Regional e Urbana, com ênfase nos temas da regionalização, região, rede urbana, cidades médias e pequenas.


POPULAÇÃO

O número médio de filhos por mulher no Brasil esconde contrastes não apenas regionais e por situação de domicílio, mas também diferenciais por cor ou raça, por nível de instrução e por rendimento. Em 2010, a TFT era de 2,49 filhos na Região Norte e 1,70 filhos na Região Sudeste; 2,63 filhos nas áreas rurais e 1,79 filhos nas áreas urbanas; 1,63 filhos entre as auto-declaradas brancas, 2,12 filhos entre as pretas e pardas e 3,88 filhos entre as indígenas; 3,09 filhos entre as mulheres sem instrução ou com ensino fundamental incompleto e 1,14 filhos entre as de nível superior completo; 3,90 filhos entre as com rendimento nominal mensal domiciliar per capita de até ¼ do salário mínimo e 0,97 filhos entre aquelas com rendimento acima de 5 salários mínimos.
[...]
Em 2020, estima-se que 20,9% da população terá menos de 15 anos de idade, 65,3% terá entre 15 e 59 anos e 13,8% estará com 60 anos ou mais. A “janela de oportunidade” da educação continuará aberta, uma vez que a população que deverá frequentar a educação infantil e básica será ainda menor do que a de 2010, em termos absolutos. Já a população idosa continuará crescendo. Esta situação sobrecarregará não apenas o sistema previdenciário, mas também o de saúde, sobretudo se for levado em consideração o fato de que, em 2020, a população de 80 anos e mais será 2,5 vezes maior do que aquela observada em 1991 e 25% maior que a de 2010. Uma situação mais preocupante é a da população em idade ativa, que deverá manter o mesmo tamanho relativo observado em 2010, mas terá que dar conta de uma população idosa proporcionalmente maior do que a da década anterior.

Paula Miranda-Ribeiro
Mestre em Demografia. Doutora em Sociologia. Professora Associada Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG, Departamento de Demografia e CEDEPLAR. Bolsista de produtividade em pesquisa do CNPq.

No primeiro trecho, parte do capítulo Território, a Profa Marly Nogueira chama nossa atenção para a necessidade inadiável de reformas nos setores agrário, urbano, saúde e educação, questões fundamentais e condicionantes da democratização do acesso ao território. No segundo trecho, parte do capítulo População, da Profa. Paula Miranda-Ribeiro, destacamos dois tempos sobre o perfil da população brasileira: o atual, com grandes diferenças a depender da região, situação do domicílio, cor ou raça, instrução e rendimento; e o futuro, mas não distante, com a constatação do envelhecimento da população.

Ora, os dois trechos tratam de questões complementares. O segundo expõe uma realidade que indica os problemas questionados pelo primeiro, que por sua vez também apontam caminhos para superar os desafios, ainda que de maneira não aprofundada. 

Estamos falando de um cenário que parte do contexto atual e sua projeção para seis anos apenas. Isto é, mudanças já em curso e que tomaram formato decisivo durante a próxima gestão do executivo e legislativo dos níveis federal e estadual. Portanto, questões a serem tratadas pelos atuais candidatos, quer sejam governo, base de apoio ou oposição, ou seja, independente da sorte de cada um nas eleições.

Enfim, diferentes realidades e seus impactos sobretudo na educação, saúde e previdência, mas também no trabalho, habitação, etc. Temas que traremos nas próximas postagens.

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