quarta-feira, 24 de setembro de 2014

O nobre Pacifismo de Bertrand Russell



Ele passou a vida inteira contra a guerra - mas como o legado de nosso mais famoso ativista da paz se sai diante de uma análise? 


Por Jonathan Rée*
Tradução Leonardo André


Ilustração de Martin Nicolausson / MP Arts

Bertrand Russell deve ser um dos intelectuais públicos mais célebres de todos os tempos. No início do século 20 ele ganhou fama internacional por suas contribuições para a lógica matemática e a defesa do "método científico na filosofia". Mais tarde, ele gerou muita polêmica ao questionar o cristianismo e a moralidade sexual tradicional. Mas na década de 1960, ele se tornou ainda mais famoso por conta de sua militância na causa do desarmamento nuclear e da paz: a questão, tanto quanto ele estava preocupado, não era apenas o bem-estar humano, mas indagar se "há futuro para o homem". Ao final de sua vida (ele morreu em 1970, aos 97 anos de idade), ele descreveu seu legado filosófico como algo "trivial" e indigno de atenção dos estudiosos, "pelo menos", como ele dizia, "se comparado ao valor existência humana".

Russell tornou-se o primeiro presidente da Campanha para o Desarmamento Nuclear em 1958, mas renunciou dois anos mais tarde, a fim de presidir o Comitê dos 100, em que prometia ser mais militante do que a CND, usando todos os meios necessários para que o governo britânico viesse a proibir a bomba.

"Há", ele escreveu,

um sentimento muito generalizado de que por pior que seja a política, não há nada que as pessoas privadas possam fazer a respeito. Este é um erro completo. Se todos aqueles que desaprovam a política do governo tomarem parte em grandes manifestações de desobediência civil,  poderiam tornar impossível a insensatez do governo e obrigar os chamados estadistas a concordar com medidas favoráveis à vida humana.

O impacto da retórica de Russell - seus sarcasmos astutos, certezas serenas e antíteses contundentes - foi reforçada pela imagen de um velho cavalheiro garboso sentado na rua com outros manifestantes e por ser preso em 1961 por violação da paz. Quando perguntado pelo magistrado se ele prometeria melhorar seu comportamento, ele disse: "Não, eu não" e foi condenado a sete dias de prisão em Brixton.

Mesmo para aqueles que não concordavam com ele, o idoso Russell tornou-se um emblema da retidão moral aliado a inteligência sobrenatural. Mas havia alguns que tinham dúvidas, tanto sobre sua análise da guerra e da violência, quanto sobre seu estilo carismático de liderança. Ele não era um pouco ansioso demais para fazer o papel de um salvador angelical? Um pouco interessado demais em apresentar-se como um intelecto prodigioso, que graciosamente descera das alturas do Olimpo para resolver a confusão que nós, terráqueos insensatos, nos  metemos? Ele não ficou, talvez, um pouco confortável demais em sua imagem de pessoa de princípios impecáveis e solitário contra toda a maldade dos políticos? E para aqueles com um senso de história também havia a suspeita de que ele estava voltando, na velhice, para aquele papel que ele havia criado para si mesmo de defensor da paz durante a Primeira Guerra Mundial, e que, em vez de aprender com o passado, ele estava simplesmente repetindo-o.

Sempre houve uma certa altivez sobre Russell, como pensador e como ativista. Ele nasceu na aristocracia, e recebeu a sua formação de professores particulares na casa palaciana de seu avô, Earl Russell, que serviu como Primeiro-Ministro da rainha Victoria. Ele então foi para o Trinity College, Cambridge, e depois de se formar, em 1895, recebeu uma grande herança e se tornou um cavalheiro de meios independentes. Ele começou a se interessar por política, pela agitação pelo comércio livre, publicou um estudo sobre o movimento socialista na Alemanha e defendeu o sufrágio feminino no parlamento em 1907. Mas ele também teve inclinação para as certezas da razão pura, e colocou-se a tarefa de reformar a matemática, fornecendo-lhe bases lógicas de um tipo nunca visto antes. Em 1903, expôs a sua visão de certeza transcendental em um pequeno livro chamado Princípios da Matemática, e ao longo da década seguinte, explorou suas implicações em três grandes volumes de Principia Mathematica, escrito com a ajuda do lógico A. N. Whitehead, que deixou incompleta em 1913.

Russell então retornou ao Trinity College para dar palestras sobre sua pesquisa, mas sua confiança foi abalada quando um jovem engenheiro austríaco chamado Ludwig Wittgenstein passou a fazer perguntas embaraçosas sobre a suposta realidade dos objetos da lógica e da matemática. Logo depois, a Grande Guerra eclodiu, e Wittgenstein partiu para lutar por seu país. Russell estava chocado - não porque Wittgenstein estava lutando do lado errado, mas porque ele estava lutando contra tudo - e ele anunciou então que se juntaria às "agitações pela paz", e que ele iria "desistir da filosofia" por isso. Em agosto de 1914 ele se juntou a vários amigos - nomeadamente Lady Ottoline Morrell ("totalmente imoral Ottoline Morrell" como algumas pessoas a chamavam) - na criação de uma organização anti-guerra conhecida como a União de Controle Democrático. A lógica matemática agora lhe parecia "uma ocupação um tanto fútil", e ele começou a dirigir reuniões de protesto, onde combateria a injustiça da guerra e o enganoso Estado britânico.

Mas ele acabou frustrado. Sua audiência consistia de ricos jovens românticos trajados em roupas da moda que gostavam de ter a sua rebeldia endossada por um filósofo famoso, mesmo que seu trabalho fosse, como eles mesmos admitiam, "totalmente além de nossa compreensão". Russell estava determinado a chegar a um público mais amplo - jovens de todas as classes que formavam até então um voluntariado ansioso para o serviço militar - e Lady Ottoline se ofereceu para ajudar. Em fevereiro de 1915 ela levou Russell a uma casa de campo em Sussex para encontrar seu jovem amigo D.H. Lawrence, famoso autor de Filhos e Amantes, romance que retratava a vida da classe trabalhadora. Lawrence compartilhou o desprezo de Russell para com a política de guerra, mas não acreditava que a paz poderia ser provocada por apelos abstratos a probidade, a razão e ao progresso. Depois de uma longa conversa Russell foi convertido. "Ele é incrível", disse ele a Morrell enquanto voltavam para Londres; "Ele é infalível ... ele vê tudo e tem sempre razão." Dentro de alguns dias, ele concordou em colaborar com Lawrence na construção de uma nova teoria política baseada na ideia de que as vidas humanas são moldadas por impulso irracional e não por um cálculo consciente. "Deve haver uma revolução no Estado," Lawrence disse a ele; "Deve começar com nacionalização de tudo... indústrias e meios de comunicação, da terra – e de um só golpe", e a revolução passaria pelo "casamento e pelo amor e por tudo... então, e somente então, começaremos a viver ".

Russell estava fascinado, e Lawrence correspondia, confessando uma "manifestação real de amor". Ele se sentiu "terrivelmente importante", quando foi convidado a se encontrar com amigos de Russell em Cambridge, e sonhava em inserir-se, proclamando que "a grande experiência de vida para cada homem é a sua aventura com a mulher." Mas ele logo descobriu que os membros do círculo de Russell, com seus apelidos brincalhões e vozes superiores, não estavam interessados ​​naquele tipo de coisa, e passou a odiá-los. Russell estava inclinado a concordar. Ele decidiu se juntar a Lawrence na formação de uma "pequena sociedade" para propagar a política da paz, e propôs iniciar com uma série conjunta de palestras públicas em Londres, no Outono.

Russell prontamente apresentou uma sinopse de suas palestras, baseando seu argumento no contraste proposto por Lawrence entre impulsos "possessivos", que levam à violência e à guerra, e impulsos "criativos", que florescem através do amor e da verdadeira democracia. Lawrence não ficou impressionado. Russell deveria abandonar a "consciência mental", disse ele, em favor do "conhecimento de sangue que vem ou através da mãe ou através de relações sexuais". Russell não estava preparado para ir tão longe. "Lawrence é um crítico tão feroz quanto Wittgenstein", ele confidenciou a Morrell, "mas eu acho que Wittgenstein está certo e Lawrence  está errado." Lawrence retaliou com brio ("Eu preferiria a rapinagem e a crueldade dos soldados alemães, do que suas palavras de bondade "), e desde então os seus caminhos divergiram.

Implacável, Russell levou suas leituras ao Caxton Hall, Westminster, na primavera de 1916, logo que o governo tornou o serviço militar obrigatório. Sua audiência incluía um grupo de amigos que dizia estar planejando indicá-lo ao cargo de Primeiro-Ministro - seu avô tinha sido um, afinal de contas, e ele era um aristocrata adequado ao cargo, e o plano certamente poderia ser efetivado conversando com as pessoas certas. Houve também um grupo de jovens admiradores, "deslumbrados", como um deles disse, com a perspectiva de "um intelecto de poder analítico aterrorizante... expondo e desintegrando as ilusões do patriotismo em tempos de guerra". A resposta de Morrell foi mais comedida.

"Foi uma ocasião bastante cômica", escreveu ela,

todos as baba-ovos que assistem palestras sobre qualquer assunto estavam lá, e entre eles havia um tal Capitão White, um tanto quanto doido, que fez um longo discurso sobre o sexo e o amor livre, ressaltando que se uma criança nasce de pais que se amam, um ao outro, não teria motivos para lutar... Então Vernon Lee levantou-se e fez um longo discurso sobre uma carteira de cigarros, agitando as mãos, com os óculos balançando...; e, claro, um representante das Artes e Ofícios que fez um discurso apaixonado e enfadonho - dizendo que a arte curaria qualquer tendência para a guerra. Bertie ficou na plateia comolhar infeliz. Por fim, ele teve que pedir-lhes para se sentarem.

Russell recebeu uma carta de Lawrence dizendo-lhe que suas palestras estavam fadadas a ser inúteis, mas Russel já não estava mais interessado; ele havia chegado à conclusão de que Lawrence era um egoísta monstruoso, sem o “real desejo de tornar o mundo melhor, repetindo seu monólogo eloquente sobre o quão ruim o mundo era".

Em matéria de eloquência autoindulgente, no entanto, Russell estava começando a demonstrar que poderia ser tão ruim quanto Lawrence. "Anseio levar ao país uma campanha “anti-guerra", disse ele, e ele certamente achou essa atividade gratificante; Lytton Strachey notou que seu triste amigo famoso "estava finalmente feliz - regozijando-se diante dos horrores e suas lições de moral". Russell não ficou desapontado quando, no final de maio, o Ministério da Guerra o processou por "fazer declarações susceptíveis de prejudicar a disciplina de recrutamento das forças de Sua Majestade". Ele só se irritou quando foi despojado de seu cargo no Trinity College e expulso de seus aposentos, mas ficou encantado quando uma aliança de ilustres colegas - incluindo alguns que não concordavam com ele sobre a guerra - protestou contra o tratamento desrespeitoso do governo dedicado ao aristocrático e renomado filósofo. Ele seguiu em frente e cumpriu sua pena de dois meses de prisão, calculando que iria gerar mais simpatia para a sua causa, mas o plano foi frustrado quando o conteúdo de seus aposentos foi apreendido e leiloado para pagar sua fiança. Em vez de ir para a prisão, ele partiu para uma turnê de palestras no sul de Gales, onde foi estimulado pelo entusiasmo de seu público da classe trabalhadora.

Em seu retorno, ele preparou um conjunto de discursos sobre os "ideais políticos" para apresentar em vários centros industriais no outono, mas descobriu que o Ministério da Guerra o havia impedido de visitar "áreas proibidas", como Glasgow, Edimburgo e Newcastle, por medo que seus "princípios viciosos" pudessem se espalhar entre os trabalhadores da indústria. (ele conseguiu levar seus discursos a Manchester e Birmingham, os quais foram prontamente publicados nos Estados Unidos, embora tenham sido proibidos na Grã-Bretanha). Seu caso foi repetidamente tratado no parlamento, para irritação generalizada: "Não seria economia de tempo para a Câmara e benefício para o país", como perguntou um membro do Tory, "se este homem fosse preso ou enviado para a Alemanha? "

As Palestras de Russell em Caxton Hall foram publicadas como Princípios de Reconstrução Social, no final do ano, e o idoso Conde de Cromer os condenou como "completamente perniciosos". Cromer admitiu que Russell era um "homem culto" e uma “pessoa superior – na verdade, muito superior”, mas sua teoria de impulsos "criativo" e "possessivo" era claramente "um incentivo para o ódio de classe", e ele parecia estar paralisado por um desejo de "martírio mental". A acusação de auto-glorificação foi aprovada, a partir de um ângulo diferente, por Lawrence: Russell e seus amigos eram, segundo ele, "antiquados, pacifistas atrapalhados e amantes da humanidade" – em suma, "a nossa doença, e não a nossa esperança".

O livro vendeu bem, e Russell se tornou "objeto de culto a heróis", como disse um observador; "Sua intransigência franca deu coragem a opositores de menos monta contra a guerra", e ele se tornou "símbolo de fé na razão e na tolerância". Quando um jovem e valente oficial chamado Siegfried Sassoon começou a perder a fé na guerra, Russell o recebeu em seu apartamento em Londres com bondade e paciência. "Seu intelecto científico austero foi muito além do meu alcance", como recorda Sassoon, mas quando Russell disse que ele poderia "servir o mundo por pensar de forma independente", ele o convenceu a proclamar sua oposição à guerra, e "assumir as consequências".

Russell estava feliz por ter ajudado Sassoon e alguns outros como ele, mas em 1917 ele estava chegando à conclusão de que suas tentativas de conter o caos da guerra tinham sido totalmente infrutíferas. Assim, decidiu retirar-se do ativismo e retornar à Filosofia. Ele havia perdido a confiança em sua capacidade de trabalho original  "principalmente por causa de Wittgenstein", como ele disse a Morrell – mas ele estava pronto para relançar a si mesmo como um escritor popular e professor freelance, mantendo um fluxo de comentários políticos dissidentes. Em seguida, em janeiro de 1918, ele publicou uma crítica precipitada sobre o exército norte-americano, que o levou a uma acusação de obstruir a diplomacia internacional e a uma pena de seis meses de prisão em Brixton.

A perspectiva de prisão não foi totalmente desagradável para Russell: estar à parte da publicidade política, proporcionou-lhe condições perfeitas para a escrita filosófica. Através de um recurso lhe foi atribuído a "Primeira Divisão" do sistema prisional, o que significava que ele seria tratado de forma adequada à sua condição social: permissão para usar suas próprias roupas, alugar um quarto privativo com seus próprios livros e mobiliário, comer o seu próprio alimento e empregar outros prisioneiros como empregados. (Tal opção tinha sido abolida quando ele voltou a Brixton mais de quarenta anos mais tarde). "A vida aqui é como a vida em um transatlântico", disse ele, e ele pode acompanhar os últimos movimentos da guerra ao obter de volta sua velha rotina e escrever a Introdução à Filosofia Matemática.

No verão de 1919, ele recebeu uma mensagem de Wittgenstein, que tinha sobrevivido aos perigos da linha de frente dos campos de batalha e agora estava aguardando liberação de um campo de prisioneiros de guerra na Itália. Wittgenstein esperava que eles pudessem reviver sua relação filosófica, e Russell, com sua generosidade habitual, marcou um encontro com ele, em Haia, em dezembro. Quando Wittgenstein mostrou-lhe um esboço do que se tornaria o seu Tractatus Logico-Philosophicus, Russell declarou ser um "ótimo livro", mas Wittgenstein não foi capaz de devolver o elogio: ele considerava Introdução à Filosofia Matemática de Russell superficial, equivocado e não regenerado. Russell não tentou defendê-la (era apenas um "livro popular", disse ele) e mesmo assim ele tinha outras coisas em mente. Logo depois, ele foi homenageado em Barcelona, ​​não só como matemático, mas como militante heroico em prol da paz mundial, e, em seguida, ele fez uma turnê pela Rússia Soviética, discursando com Lenin, Trotsky e outros líderes revolucionários, antes de passar um ano alegre na China, onde ele pregava as virtudes do pensamento científico moderno para o público, que incluia o jovem Mao.

Apesar de todas estas aventuras – além de ter se divorciado e casado novamente e ter se tornado pai – Russell não esquecia Wittgenstein, que agora estava ensinando em uma escola primária nos Alpes austríacos. Em agosto de 1922 Russell estava passando pela Áustria em seu caminho para uma escola de verão italiano da Liga Internacional das Mulheres para a Paz e Liberdade, e marcou um encontro com Wittgenstein novamente. O encontro não foi um sucesso. Wittgenstein considerava o trabalho filosófico de Russell bobo e superficial, e ele ridicularizou a ideia de uma Liga pela Paz e Liberdade. "Eu suponho que você preferiria uma liga pela Guerra e Escravidão", Russell respondeu, e Wittgenstein replicou "eher noch!" - "Muito melhor, muito melhor!" Essa posição não era totalmente séria, claro: é óbvio ululante que a paz é melhor do que a guerra, e a liberdade preferível à escravidão, assim como a saúde é melhor do que a doença, e felicidade é preferível à depressão. Mas ele não estava brincando: diferenças políticas genuínas, pensou ele, não são resolvidas declarando-se o óbvio. Entretanto, ele respeitava as virtudes do antigo estadista: prudência, diplomacia e devida cautela sobre as consequências não intencionais da ação política. Apresentar-se como defensor da "Paz e da Liberdade" era um exercício de presunção e auto-propaganda, em vez de um ato heroico de virtude moral ou política, ou uma contribuição substancial para o bem comum. Russell pode ser um ateu na teoria, mas ele parecia estar se realizando como um pastor hipócrita. "Russell e os padres", como Wittgenstein diria, "tem feito um mal infinito, um mal infinito".

Parece-me que Wittgenstein tinha um ponto. A agenda da paz de Russell e seus seguidores sempre esteve baseada na suposição de que a guerra é simplesmente um eufemismo para a loucura do assassinato em massa patrocinado pelo Estado, e que poderíamos impedi-lo, direcionando-o para a sanidade moral e política –, comprometendo-nos com a justiça mundial e o fim da pobreza, por exemplo, ou a igualdade social e sexual, ou de propriedade, ou com um governo mundial, ou com uma explosão de criatividade e sexo como na teoria D.H. Lawrence. Mas os caminhos para a guerra são pavimentados não apenas com maldade, mas com a certeza da justiça. As pessoas que optam por participar de ações militares são mais propensas a ser altruístas do que egoístas: estão preparadas para sacrificar suas próprias vidas por causa de algo que as transcende, como a pátria ou a religião, ou o socialismo, o secularismo ou a democracia, ou um mundo onde a paz e a tolerância reinará para sempre. É claro que eles são responsáveis​​, como o resto de nós, por estarem seriamente equivocados de inúmeras maneiras: eles provavelmente têm uma escala de valores inconsistente, uma frágil compreensão dos fatos e um senso de proporção imperfeito. Podem, assim, possivelmente, estar abertos à persuasão através da argumentação diplomática, negociação sutil e retórica engenhosa, mas nada vamos conseguir acusando-os de egoísmo, niilismo ou idiotice moral, ou dando palestras sobre auto-sacrifício, princípios elevados e o futuro da humanidade.

Diferentes ameaças à paz, como diferentes ameaças à saúde, exigem diferentes cuidados e intervenções diferentes, dependendo de cada caso individualmente, e sucesso em evitar a guerra vai depender da sorte, tanto quanto o julgamento. Se a perspectiva de extermínio nuclear tem diminuído desde o momento em que Russell estava profetizando isso, a explicação reside menos em campanhas pela paz e liberdade do que nas consequências inesperadas de acontecimentos que ninguém poderia ter previsto - os cálculos e erros de cálculo de Mikhail Gorbachev, por exemplo, ou a astúcia acidental de Ronald Reagan. A ironia é uma força da história, bem como uma figura de linguagem, e na política você precisa estar preparado para surpresas, mesmo se você é tão inteligente quanto Bertrand Russell.

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*Jonathan Rée se descreve como "filósofo freelance e historiador", mas qualquer um que tenha lido seu jornalismo amplamente divulgado irá conhecê-lo simplesmente como um dos melhores escritores de todos. Sua escrita tem aparecido em Evening Standard,  London Review of Books, Prospect,  Independent, Times Literary Supplement, entre muitos outros.


Este artigo foi trazido a você por New Humanist, uma revista trimestral de idéias, ciência e cultura.

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