terça-feira, 4 de novembro de 2014

VOTO SEVERINO*

Texto de introdução: Julio Canuto.

Para além das provocações e textos de altíssimo teor preconceituoso, o texto abaixo, uma crônica, é apenas para avisar aos desinformados que há, sim, racionalidade nos votos. Seja os "do sul" ou "do norte", como muito se tem falado. Se aqui a voz é do nordestino é porque considero que contra ele foram feitas as mais graves agressões. O problema, em um regime democrático, é querer impor a sua opinião sobre os demais, como se estivéssemos em um contexto em que uma parcela da população detém o monopólio da verdade, e a outra é a pura expressão da ignorância. Mais proveitoso seria se entendêssemos as racionalidades envolvidas nos processos de escolha. Por que os chamados neoliberais estiveram no poder por três mandatos? Por que os populistas estão prestes a entrar no quarto mandato consecutivo? Ser brasileiro, este que em sua origem é ninguém (que não queria ser negro e índio para não ser escravo, mas também não podia ser português), que foi jogado a sua própria sorte, é ser justamente aquele que deve superar as diferenças, aquele que tem o dever de desvendar a complexidade do que lhe constitui. A América portuguesa tornou-se um só país, oficialmente em 1822. E é um só país! Nossas diferenças não são entre regiões e estados. Nossas diferenças estão expostas em nosso núcleo familiar. E a democracia é o dissenso!


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VOTO SEVERINO
* do matuto escrevinhadô Gustavo Rossetto.


Vem o cabra mais branco que o branco Nassau, mas longe de ser um branco como o branco que foi Nabuco, todo queixoso de que aqui pra cima o sujeito é abestado e não faz escolha direita; que lá pra baixo a terra é boa e a gente é lida e da lida, gente que ele diz que aqui pra cima não existe nem nasce. Mas o sertanejo, todo despudor e língua maior que a boca, não lhe deixou incontestado:

"Ói, cabra, que lhe digo de uma vez e uma vez só, que não me sobra muito tempo pra prosa porque a enxada tem que cavoucar fundo o massapê rachado: lhe pergunto quão negra é a dor da fome, preta toda como o céu do sertão, mas despovoada do punhado de estrela, molhada do último gosto de farinha e pelejando em não deixar o caboclo dormir; ouso falar ainda, cabra do sul, que lá a água não tem cor nem sabor, mas que teu filho tem professor e tem doutor. Não me diga, então, com a cabeça lambuzada de brilhante, que a sorte é amiga do suor, nem me diga que o caminho da tua graça foi tua mão que fez; verdade pela verdade, meu caminho já foi feito pela mão da parteira, assim como foi o teu, cabra. Deixe disso. Ave-Maria, que não me estranho com ninguém e não me ponho pra esse tipo de prosa que adoece a cabeça da gente. Mas vou lhe contar é uma história dessas que aqui teve quem não vingou pra poder ver, nem meu pai, nem minha mãe, Deus tenha junto. Veja você, se não foi obra de Padinho Ciço, foi a Virgem que botou o manto: só sei que a minha mesa se encheu e o menino virou o primeiro ano. Fez da mulher uma alegria danada, dava gosto de ver. A desacreditada da terra castigada pelo sol, que coisa, saiu da penumbra que matava mais que a carabina do poderoso Lampião. Meu menino, forte que só, veja ele ali botando o lápis e a brochura no embornal em que eu só botava semente. Se eu não fosse muito homem, corria lágrima de admirar. Quem é mais acertado pois então, eu ou tu? Se aqui se fizesse a mesma escolha que se faz lá no sul, era trazer de volta aquela sombra feita debaixo de sol, embiocada e aparecida qual tocaia de coronel, prontinha pra se alimentar. Lá pro sul, cabra, fazia dia enquanto aqui fazia noite, dois pedaços de chão separados nesse mundo. Agora que o sol deixou de castigar o sertanejo pra alumiar a sombra, não venha me pedir, não a mim que sou prova do que vivi, que eu faça a escolha lá do sul. Aproveita essa luz, cabra apessoado, e venha ver o que se tem feito desse lado. Chega de papo. Bora tomar um café agorinha passado?"



2 comentários:

Regiane disse...

"dois pedaços de chão separados nesse mundo(...), não venha me pedir, não a mim que sou prova do que vivi".
E assim vamos com a esperança que cada um respeite a experiência do próximo,-considerando o que só ela viveu , e não à partir de uma opinião distante e mesquinha.Ótimo texto!!

Anônimo disse...

Excelente texto e introdução. Parabéns Gustavo Rossetto e Júlio Canuto.