sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

2015 de mudanças?

por Julio Canuto

O ano de 2014 terminou. Talvez, ainda não. Aliás, há quem possa imaginar que ainda estamos em 2013. As manifestações de junho daquele ano, em princípio muito bem focadas no aumento das tarifas do transporte público, foram ganhando outras dimensões. Várias outras pautas ganharam as ruas, nas vozes de pessoas que nunca estiveram em uma manifestação e até mesmo as viam com algum preconceito. Mas o fato mais importante é que ficaram evidentes o descontentamento generalizado, bem como as divisões de nossa sociedade. 

Os grandes eventos da Copa das Confederações e Copa do Mundo acirraram os ânimos. Particularmente vejo que o brasileiro soube separar sua preferência esportiva do seu descontentamento com a situação do país - e não me refiro aqui exclusivamente ao governo federal, mas a todas as instâncias de governo nos três níveis, isto é: executivo, legislativo e judiciário; e federal, estadual e municipal. Não por acaso, o tema das eleições de 2014 foi "mudança". Até mesmo quem tentava a reeleição levantou essa bandeira. 

No entanto, os mandatos começam e a realidade de impõe. Para mudar, é preciso olhar o passado, organizar o presente e planejar muito bem o futuro, afinal o tempo de promessas acabou. Analisando os discursos de posse neste 1º de janeiro, notei que a temática da mudança, com ambiciosos planos e projetos, deu lugar outros três: reformar, apurar e organizar. Ao menos para os que iniciam seus mandatos assumindo o Estado governado anteriormente por um opositor, a mensagem transmitida é que se pretende encerrar 2013, isto é, "zerar" o descontentamento e iniciar novo ciclo, se houver tempo.  Cito, a seguir, três exemplos.

REFORMA

O discurso mais contundente foi o do governador de Mato Grosso, Pedro Taques (PDT). Além de anunciar a demissão de 2000 servidores em cargo comissionado, com a convocação de aprovados em concursos públicos, matéria da Folha de S.Paulo informa que:

 “O governador afirmou que cobrará das empreiteiras responsáveis a conclusão das 44 obras da Copa do Mundo que estão inacabadas, como o VLT (Veículo Leve sobre Trilhos), que já consumiu R$1 bilhão dos cofres estaduais e ainda se encontra em estágio inicial de desenvolvimento” 

Leia a matéria na íntegra clicando AQUI.


APURAÇÃO

Em Minas Gerais, o governador eleito Fernando Pimentel (PT) anunciou que fará um levantamento da situação do poder executivo. Para tanto, nomeou Mário Spinelli para a Controladoria-Geral do Estado, que atuou na gestão de Fernando Haddad na Prefeitura de São Paulo, sendo responsável pela apuração da máfia do ISS. Disse o governador:

“Não se trata de uma mera auditoria de contas públicas. É algo muito maior e mais importante. É uma explicitação do ponto de onde estamos partindo em termos econômicos, sociais, de desenvolvimento humano e também das finanças. Mas nosso objetivo não é olhar para o passado, e sim definir o ponto de partida para o futuro” 
[...]
“Não faremos caça às bruxas. Vamos tratar o dinheiro dos cidadãos de Minas Gerais com respeito. O que tiver de ser feito será”. 

Leia a matéria do Estadão na íntegra clicando AQUI. 

ORGANIZAÇÃO

Com grande déficit nas contas públicas, o novo governador do Distrito Federal, Rodrigo Rollemberg (PSB), também teve o tom de zerar o passado. Estima-se que o antigo governador, Agnelo Queiróz (PT), tenha deixado o governo com uma dívida de R$2 bilhões, próximo a 15% da receita corrente líquida deste ano. Salários de servidores foram atrasados, bem como pagamento de empresas que prestam serviço ao governo. Vale lembrar que todo governo tem, no primeiro ano, o orçamento deixado pelo antigo ocupante do cargo.

 “Vamos trabalhar quatro anos para entregar uma Brasília melhor do que recebemos”
[...]
“Com certeza iremos fazer de tudo neste primeiro momento para equilibrar a economia a fim de não deixar nenhum salário atrasar”

Leia a matéria do Estadão na íntegra clicando AQUI.

Acesse as notícias sobre as posses dos governadores eleitos em todos os Estados clicando AQUI (Portal G1).

OS RUMOS DO PAÍS: EDUCAÇÃO COMO PRIORIDADE

No governo federal, a presidente reeleita Dilma Rousseff teve como grande foco de seu discurso o tema da Educação. Segundo ela, a Educação será "a prioridade das prioridades" e até mesmo o novo lema de governo faz referência a isso: Brasil, Pátria Educadora. 

Todos os outros temas tratados, de certa forma acabam passando pela educação e aqui cabe uma observação: em 2011, em seu primeiro discurso em rádio e TV, a presidente que iniciava seu primeiro mandato já destacava a Educação, porém com maior destaque para a educação profissional. Na ocasião, publiquei postagem sobre o assunto neste blog, intitulada "O futuro da Educação no Brasil", colocando minhas ressalvas. 

Além dos inevitáveis ajustes na economia e do combate a corrupção, em especial pelo vergonhoso caso da Petrobrás, Dilma anunciou, por exemplo, que aos beneficiários do Bolsa-família, "destaque será dado à formação profissional dos beneficiários adultos e à educação das crianças e dos jovens". 

Afirmou a presidente: 

“Só a educação liberta um povo e lhe abre as portas de um futuro próspero.
Democratizar o conhecimento significa universalizar o acesso a um ensino de qualidade em todos os níveis – da creche à pós graduação; para todos os segmentos da população – dos marginalizados, os negros, as mulheres e todos os brasileiros”

Mas além da continuidade e ampliação dos programas na área de Educação, a presidente também afirmou que a educação, como prioridade das prioridades, é a busca, em todas as ações do governo, de “um sentido formador, uma prática cidadã, um compromisso de ética e sentimento republicano”.

Leia ou assista a íntegra do discurso clicando AQUI (matéria da Folha de S.Paulo). 

Colocar a Educação como lema do governo é um avanço, ainda mais quando se destaca a importância da Educação para além da formação profissional. Por outro lado, já há muita dúvida em relação as pessoas escolhidas para liderar essa a missão: Cid Gomes como Ministro da Educação e Aldo Rebelo como Ministro de Ciência e Tecnologia não são especialistas nas áreas. Quem dera estar enganado!

Para finalizar, a lista de compromissos de Dilma Rousseff:

***

Enfim, independente de ter votado ou não nos que hoje assumiram os cargos de presidente e governadores, espera-se o início de um ciclo de mudanças qualitativas, mas ao mesmo tempo - e necessariamente - será preciso reformar, apurar, organizar. Aliás, o debate em torno da REFORMA política precisa ganhar novo fôlego. Que tudo isso não fique apenas no discurso.  



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