quinta-feira, 25 de junho de 2015

Utopias, crenças, medos e fatos. Sobre "o homem que amava os cachorros", de Leonardo Padura

por Julio Canuto


Há alguns meses li "O homem que amava os cachorros", do jornalista cubano Leonardo Padura. Lançado em 2009, o livro narra os dias de exílio de Liev Dadidovitch, o Trótsky, desde a Sibéria até o México, onde foi assassinado, e a trajetória do catalão Ramón Mercader, ativo na guerra civil espanhola, a quem foi atribuída a missão de assassinar o líder bolchevique e por isso passando a assumir varias identidades, entre as quais um belga chamado Jacques Monard, a que usava no dia do assassinato. Intermediando as trajetórias, o encontro de um escritor cubano, Iván Cardenas, com um personagem misterioso em Cuba, Jaime López - o homem que amava os cachorros -, o Mercader mais velho nos dias finais de sua vida. Com isso, narra a condução do regime comunista na União Soviética por Stálin, chamado por Trótsky de "o coveiro da revolução", desde o ápice de seu poder e o consequente declínio da utopia socialista, com as condenações de ex aliados do regime, acusados de traição, e toda a trama para aniquilar o líder bolchevique, organizador e ex comandante do Exército Vermelho

Destaco a seguir quatro trechos do livro que em minha opinião resumem muito bem as crenças, as esperanças, as ações e as angústias dos que tiveram uma participação ativa, embora nem sempre conscientes da história, bem como os de quem, após o fim da URSS, volta o olhar em retrospectiva. Fala sobre sonhos, revoluções, fé, medo, luta pelo poder e o seu peso sobre os homens.

O primeiro trecho é sobre Trótski, enquanto na URSS vários ex companheiros da revolução eram condenados sob acusação de traição.Ou seja, era a visão de um perseguido:
     Convencido de que se aproximavam tempos ainda mais turbulentos, Liev Davidovitch encarregou seu secretário Erwin Wolf de fazer chegar a Liova a ultima versão de A revolução traída. Embora tivesse dado o livro por encerrado no início do verão, os acontecimentos de Moscou levaram-no a atrasar seu envio aos editores, porque esperava poder acrescentar uma reflexão sobre o julgamento contra Zinoviev, Kamenev e seus companheiros de destino. No entanto, diante da incerteza do que poderia acontecer à sua vida, decidira acrescentar apenas um pequeno prefácio. O livro seria uma espécie de manifesto onde Liev Davidovitch adequava seu pensamento à necessidade de uma revolução política na União Soviética, de uma mudança social enérgica que permitisse aniquilar o sistema imposto pelo stalinismo. Não deixava de reparar na estranha ironia de uma proposta política nunca antes concebida nem pelas mais febris mentes marxistas, para as quais teria sido impossível imaginar que, atingido o sonho socialista, fosse necessário chamar o proletariado a revoltar-se contra o seu próprio Estado. A grande lição proposta pelo livro era que, da mesma forma que a burguesia criara diversas formas de governo, o Estado operário parecia criar as suas e o stalinismo revelava-se como a forma reacionária e ditatorial do modelo socialista. Com a esperança de que fosse possível salvar ainda a revolução, ele tentara desligar o marxismo da deformação stalinista, que qualificava como o governo de uma minoria burocrática que, através da força, da coação, do medo e da supressão de qualquer vislumbre de democracia, protegia seus interesses contra o descontentamento majoritário no interior do país e contra os surtos revolucionários da luta de classes no mundo. E terminava interrogando: se já tinham sido pervertidos até as entranhas o sonho social e a utopia econômica que o sustentava, o que restaria da experiência mais generosa jamais sonhada pelo homem? E respondia: nada. Ou restaria, para o futuro, a marca de um egoísmo que tinha usado e enganado a classe trabalhadora mundial; permaneceria a lembrança da ditadura mais férrea e desprezível que o delírio humano poderia conceber. A União Soviética legaria ao futuro o seu fracasso e o medo de muitas gerações à procura de um sonho de igualdade que, na vida real, se transformara no pesadelo da maioria (p.213).
O segundo trecho é parte do diálogo de Ramón Mercader com seu mentor, já em Moscou após ter cumprido sua pena. Soubera que seu mentor também iria a julgamento como outros tantos já haviam ido injustamente, e que fatalmente seria condenado a morte, mas por ocasião das circunstâncias políticas acabou se livrando. Após traçar um perfil de Stalin através de seus atos com os camaradas mais próximos, ele conclui:
Nessa altura compreendi que a crueldade de Stalin não obedecia apenas à necessidade política ou ao desejo de poder: devia-se também ao seu ódio pelos homens, pior que isso, ao seu ódio pela memória dos homens que o ajudaram a criar suas mentiras, a foder e a reescrever a história. Mas, na verdade, não sei quem estava mais doente, se Stalin ou a sociedade que o deixou crescer...Suka!
-  Era o mesmo Stalin que você adorava e me ensinou a adorar? - Sempre que  entrava naqueles terrenos pantanosos, Ramón sentia-se desorientado, como se lhe falassem de uma história alheia à sua, de uma realidade diferente da que ele próprio tinha construído em sua cabeça. (p.531-532).
Ainda nesta longa conversa, Ramón comenta sobre o conteúdo de uma carta que recebeu na prisão, em 1948, remetida por "um judeu que vivia em Nova York", e que na verdade, ambos reconheceram, era Alexander Orlov.
- Estava assinada por um tal de Josué não sei quê, e dizia que ia me contar coisas que lhe tinham sido confiadas por um velho agente da contraespionagem soviética, seu amigo próximo, coisas que achava que eu devia saber... Na verdade não dizia nada que eu já não tivesse pensado, mas, dito por ele, tudo aquilo adquiria outra dimensão, o que me obrigou a refletir... Falava do engano, dos enganos, na verdade. Dizia que Stalin nunca desejara que os republicanos espanhóis ganhassem a guerra e que seu amigo fora enviado para a Espanha justamente a fim de evitar, primeiro, uma revolução e, evidentemente, uma vitória republicana. A guerra deveria durar apenas o suficiente para que Stalin pudesse utilizar a Espanha como moeda de troca em seus pactos com Hitler e, quando esse momento chegou, abandonou-nos à própria sorte, embora tenha levado a fama de ter ajudado os republicanos e, como prêmio adicional, ficando também com o ouro espanhol. Falava-me ainda do assassinato de Andreu Nin. Seu amigo tinha participado daquela encenação, e dizia-me que todas as hipotéticas provas contra Nin, tal como as que havia contra Tukhatchevski e os marechais, tinham sido preparadas em Moscou e em Berlim, como parte da colaboração facista. (...) - E falava-me de Trotski... - Ramón emudeceu, acendeu um cigarro, esfregou o nariz. - Contava uma coisa que você sabia muito bem: que o velho nunca tinha feito acordos com os alemães. A prova de fogo foram os julgamentos de Nuremberg, onde não apareceu um único vestígio da suposta colaboração fascista de Trótski... Dizia que eu tinha sido um instrumento do ódio e que, caso não acreditasse nele, esperava que eu vivesse tempo suficiente para ver como aquela tramoia acabaria vindo à luz do dia... Quando li o discurso de Kruschev, em 1956, lembrei-me muito dessa carta. O mais difícil em todos esses anos foi saber dessas verdades e ter a certeza de que, apesar dos enganos, não podia falar.- Sabe por quê? Porque no fundo somos uns cínicos, tal como Orlov. E porque somos, sobretudo, uns covardes. Sempre tivemos medo, e o que nos moveu não foi a fé, como dizíamos a nós mesmos todos os dias, mas o medo. Por medo muitos calaram a boca, pois não tinham remédio, mas nós, Ramón, fomos mais além, esmagamos pessoas, chegamos a matar... porque acreditávamos, mas também por medo - disse e, para espanto de Ramón, sorriu. - Ambos sabemos que, para nós, não há perdão... Mas, por sorte, como já não acreditamos em nada, podemos beber vodka e até comer caviar neste inferno materialista dialético em que nos calhou viver por nossas ações e pensamentos... (p.536-537)
Por fim, uma reflexão de Ivan Cárdenas, quando em 1983 recebeu os manuscritos de López:
Enquanto lia, senti que o horror me inundava. Segundo o homem que amava os cachorros, depois daquele encontro casual, Ramón fora lhe contando os pormenores que eu já conhecia acerca de sua entrada no mundo das trevas, sua transformação espiritual e mesmo física e suas ações sob a pele de Jacques Monard e Frank Jacson. Mas também lhe confiara tudo o que, com os anos, tinha conseguido saber sobre si próprio e sobre as maquinações e os objetivos mais sinistros dos homens que o levaram até Coyoacán e lhe colocaram uma picareta nas mãos. Se antes eu tinha pensado que López excedia com frequência os limites da credibilidade, o que contava naquela longa missiva superava o  concebível, apesar de tudo o que, desde o nosso último encontro, eu pudera ler acerca do mundo obscuro mas tão bem encoberto do stalinismo. Como é fácil deduzir, aquela história (recebida anos antes das revelações da glasnost) foi como uma explosão de luz, capaz de me iluminar não só sobre o destino tétrico de Mercader, mas sobre o de milhões de homens. Aquela era a própria crônica do aviltamento de um sonho e o testemunho de um dos crimes mais abjetos já cometidos, porque não atingia apenas o destino de Trótski, ao fim e ao cabo antagonista naquela luta pelo poder e protagonista de vários horrores históricos, mas o de muitos milhões de pessoas arrastadas - sem que o tivessem pedido, muitas vezes sem que ninguém jamais tivesse lhes perguntado seus desejos - pela ressaca da história e pela fúria de seus patrões - disfarçados de benfeitores, de Messias, de eleitos, de filhos da necessidade histórica e da dialética inelutável da luta de classes... (p.336-337).
Enfim, esses trechos constituem peças de destaque que o leitor irá relacionar e descobrir os detalhes. É, sem dúvida, um dos mais impressionantes romances que li, com várias revelações sobre as trajetórias de cada um dos personagens desse pedaço da história do século XX. A habilidade de Padura em reconstruir a história a partir do ponto de vista dos três principais personagens, sendo Ivan o representante do povo vivendo sob aquele regime, fazem as 585 páginas passarem de maneira muito breve e intensa. 

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autor: Leonardo Padura
prefácio: Gilberto Maringoni
orelha: Frei Betto
páginas: 592

Um comentário:

Revistacidadesol disse...

leia meu texto sobre Padura em meu blog. Padura falsifica a história do traidor Trotsky