segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Arte e argumento nos protege, a censura não

Os críticos do Charlie Hebdo que dizem que é irresponsável ofender a religião estão errados, argumenta Terri Murray.


- Por Terri Murray*/Charlie Hebdo - Set/15
- Traduzido por Leonardo André



Em maio, a equipe editorial do Charlie Hebdo – oito dos quais foram assassinados no início do ano – foi rejeitada por mais de 200 autores norte-americanos proeminentes. Depois de emitir observações superficiais sobre a validade de se proteger a liberdade de expressão, os escritores passaram a explicar por que eles estavam boicotando um evento de gala oferecido pela PEN, organização pela liberdade de expressão, destinada a homenagear a revista. Os escritores caracterizaram a crítica rude de Charlie Hebdo sobre a religião e de suas principais figuras como "gratuita", o que implica que tais tolices infantis não servem para fins sociais vitais.

A alegação deles, no entanto, é baseada em premissas equivocadas sobre a natureza da infração, particularmente quando se trata de grupos minoritários na sociedade. Em primeiro lugar, os grupos religiosos não são homogêneos em suas crenças, práticas ou sentimentos. A mesma visão ou imagem que pode ser experimentada por um membro de uma comunidade religiosa como profundamente ofensiva, para outro pode ser catártica, libertadora ou profundamente salvadora. Pensar o contrário é generalizar sobre todos os membros de uma cultura religiosa.

Para assumir que todos os muçulmanos serão tão ou quase tão "ofendidos" por certa charge, piada ou categoria de discurso é basear-se na teoria ingênua de que só há uma maneira de ser muçulmano. Poucos muçulmanos têm suas identidades definidas apenas pela sua religião, assim como as identidades de apenas alguns ateus são definidas unicamente pela falta de crença em Deus.

Censurar insultos religiosos não irá proteger uma cultura minoritária de culturas externas assim como impedirá a livre escolha dentro dessas culturas menores suprimindo a diversidade de opiniões internas. Se adotarmos uma proibição irrestrita a toda "ofensa religiosa" é difícil ver como os muçulmanos liberais ou pluralistas, então, viriam a exercer o seu direito de criticar islâmicos autoritários que, de outra forma, obrigariam todos os muçulmanos a estarem em conformidade com as leis fundamentalistas e "respeitar" (ou seja, obedecer) seus tabus. A liberdade de expressão beneficia todos os tipos de muçulmanos, enquanto que a censura só beneficiaria os extremistas.

Muçulmanos como grupo são, por vezes, vistos como "terroristas", difamando aqueles que não são, mas uma lei que encubra ofensas - ou tabus - não protegeria esta maioria moderada. Eles já são robustamente protegidos dentro de estados seculares, onde a liberdade de expressão é rigorosa. Por definição, apenas o intolerante poderia desejar o uso da violência ou da coerção legal para suprimir a crítica pública de suas crenças. O resto de nós – incluindo muitos muçulmanos – utilizam argumento, arte, comédia e sátira para demonstrar nosso ponto de vista e desafiar nossos oponentes. A proibição permanente da liberdade de expressão não é um preço que vale a pena ser pago em troca de proteção contra o desconforto temporário de palavras insultuosas.

Chegamos ao cerne da questão: a religião pouco tem se relacionado com crenças particulares e convicções pessoais. Com demasiada frequência, tem se ocupado com os outros e como eles devem viver. Religiosos moderados por definição não se ofendem com discordância e crítica, porque não exigem que os outros concordem com eles ou vivam de acordo com modo de vida escolhido por eles.

A religião raramente tem se limitado a crenças particulares de cada indivíduo e as escolhas da vida, e é por isso que deve permanecer aberta ao escrutínio público e ao ridículo. Onde é permitido, ideologias religiosas intolerantes ditam tabus sociais e definem comportamentos inofensivos como "imorais". Este é o caso em muitas sociedades e culturas ao redor do globo.

É por isso que não posso concordar com os críticos do Charlie Hebdo que pensam que ofender a religião é um jogo infantil "irresponsável". As mesmas liberdades que hoje são concedidas a estes adultos encerrados em seu meio social ocidental (tanto que eles estão preparados para jogá-los fora sem pensar duas vezes) foram conquistados para eles por mártires "infantis" que pagaram por eles com suas vidas.

Liberalismo político baseia-se na crença de que nenhum ser humano é infalível, portanto, nenhum está em posição para censurar a livre expressão de qualquer ideia, não importa o quão ofensivo ou impopular seja. Isso configura um padrão único para todos, de modo que as ideias possam ser "testadas" contra os méritos de outros pontos de vista. 

Esta não é uma "ideologia ocidental", mas um quadro justo em que qualquer ideologia pode ser livremente discutida e perseguida, bem como criticada e rejeitada. Em contrapartida, censurar a dissidência impede o debate e limita as oportunidades de aprender com novas evidências, admitindo apenas a retidão pessoal e a estagnação cultural. O "respeito" que acumula para o status quo é mais semelhante a temer do que a estimar. As crenças dominantes não são realizadas porque eles ganharam a competição com alternativas, mas porque as alternativas foram silenciadas.


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Dr. Terri Murray é um ensaísta, autor, católico "reabilitado" e defensor dedicado à liberdade de expressão.


Este artigo foi trazido a você por New Humanist, uma revista trimestral de idéias, ciência e cultura.


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