segunda-feira, 9 de maio de 2016

Bertrand Russell: Amor, Sexo, a Boa Vida e Como Superstições Morais Limitam a Nossa Felicidade




"A boa vida é inspirada pelo amor e guiada pelo conhecimento. Nem o amor sem conhecimento, nem conhecimento sem amor pode produzir uma boa vida".

Por: Maria Popova/Brain Pickings*
Tradução: Leonardo André

Bertrand Russell (18/05/1872 – 02/02/1970) perdura como um dos mais lúcidos e iluminados pensadores da humanidade, suas ideias estão entre o eterno e o profético. Um século antes de nossa era de distrações e produtividade intensa, Russell advertia contra seus efeitos perigosos e defendeu o papel do tédio e da quietude na nossa conquista da felicidade. Seus dez mandamentos do ensino permanecem como alguns dos princípios mais sucintos sobre a educação já traduzidos em palavras. Sua visão sobre a natureza humana demonstra desde nosso impulso para a destruição até nosso anseio pela graça. Mas em nenhum lugar o brilho de Russell nos conforta a mente e o espírito mais profundamente do que em What I Believe  (biblioteca pública) - seu catálogo de credos escrito em 1925, uma espécie de ecologia moral com que ele nos presenteou sobre a imortalidade e a existência das religiões.


Depois de estabelecer a sua definição do que seja uma boa vida – “uma boa vida é aquela inspirada pelo amor e guiada pelo conhecimento", escreve Russell, "nem amor sem conhecimento, nem conhecimento sem amor pode produzir uma boa vida" – ele aponta o mais essencial destes dois ingredientes, a uma humanidade que passa séculos tentando se definir e dedicando filosofias inteiras para tentar entender a si. Russell escreve:

Embora amor e conhecimento sejam necessários, o amor é mais fundamental, uma vez que pode levar as pessoas inteligentes a buscar o conhecimento, a fim de descobrir como beneficiar aqueles a quem amam. Mas se as pessoas não são inteligentes, elas vão se contentar em acreditar no que lhes foi dito, o que pode fazer mal, apesar da benevolência mais genuína.

Mais uma vez, a clarividência de Russell revela-se – muitas décadas mais tarde, o grande mestre zen Thich Nhat Hanhs viria a escrever "amar sem saber amar pode ferir a pessoa que amamos". Mas Russell tem o cuidado de observar que antes de amar precisamos conhecer as muitas dimensões do amor:

O amor é uma palavra que abrange uma grande variedade de sentimentos; digo isto intencionalmente, pois desejo abranger todos eles. O amor como uma emoção – o amor "a princípio" não me parece genuíno – move-se entre dois pólos: por um lado, o puro deleite da contemplação; por outro lado, a benevolência pura. Onde objetos inanimados estão em causa, temos o puro deleite da contemplação; não podemos sentir benevolência por uma paisagem ou uma sonata. Este tipo de satisfação está presumivelmente na origem da arte. Ele é mais forte, como regra, em crianças do que em adultos, pois as crianças são mais suscetíveis a visualizar objetos de forma utilitarista. Ele desempenha um grande papel em nossos sentimentos para com os seres humanos, alguns dos quais têm charme e outros não, quando considerados apenas como objetos de contemplação estética.
Ilustração de Oliver Jeffers de ‘The Heart and the Bottle’. Clique na imagem para saber mais (em inglês).
A alquimia de um amor completo, Russell argumenta, funde estes dois elementos de prazer e benevolência ao contemplar o amado:

Amor em sua plenitude é uma combinação indissolúvel dos dois elementos, prazer e bem-querer. O prazer do pai de uma criança bonita e bem-sucedida combina ambos os elementos; o mesmo acontece com o amor sexual no seu melhor. Mas no amor sexual a benevolência só vai existir se houver a posse segura, caso contrário o ciúme vai destruí-lo, embora talvez, na verdade, aumentando o prazer da contemplação. Prazer sem bem-querer pode ser cruel; bem-querer sem prazer facilmente tende a tornar-se algo frio e despertar um sentimento de superioridade. A pessoa que deseja ser amado deseja ser o objeto de um amor que contém ambos os elementos.

O desequilíbrio entre os dois é, talvez, o que irritava Susan Sontag, quando considerava "o mundo entre o amor e o sexo” meio século mais tarde. Para Russell, este amor de duas dimensões é inseparável do segundo elemento para uma boa vida: o conhecimento. Mas ele tem o cuidado de observar que esse conhecimento é científico – um conhecimento pleno do mundo, como reflexo da realidade – ao invés de ético. A moralidade, argumenta, é uma questão totalmente diferente – e ainda assim, estranhamente, ela também volta como uma força psicológica que pode associar-se com o amor: o desejo. Em um sentimento que aponta 
a Encruzilhada entre Obrigação e Propósito, ele escreve:
 
Todas as regras morais devem ser testadas para examinar se elas tendem a alcançar os fins que desejamos. Eu digo os fins que desejamos, não os fins que devemos desejar. O que nós somos “obrigados” a desejar é apenas o que alguém espera que nós desejemos. Normalmente é o que as autoridades esperam que nós desejemos – pais, professores, policiais e juízes. Se você me diz "você deve fazer isso ou aquilo", a sua razão se impõe sobre meu desejo para sua aprovação – junto, possivelmente, com recompensas ou punições ligados a sua aprovação ou desaprovação. Uma vez que o comportamento nasce do desejo, é claro que as noções de ética podem não ter importância alguma, exceto no momento em que influenciam o desejo. Eles fazem isso através do desejo de aprovação e o medo de desaprovação. Estas são forças sociais poderosas, e vamos naturalmente se esforçar para conquistá-los se quisermos alcançar qualquer propósito social.

O desejo, insiste Russell, é um guia tão potente que ele não pode ser regulado ou controlado através de qualquer outro sistema de varas-e-cenouras – só pode ser aproveitado e cultivado:

Não há maneira concebível de determinar que as pessoas façam coisas que elas não queiram fazer. O que é possível é alterar os seus desejos através de um sistema de recompensas e sanções, entre as quais a aprovação e desaprovação social estão entre as mais potentes. A questão para o moralista legislativo é, portanto: Como se arranjar esse sistema de recompensas e punições de modo a alcançar o máximo do que é desejado pela autoridade legislativa? ... Fora os desejos humanos não existe um padrão moral.
Assim, o que distingue a ética da ciência não é qualquer tipo especial de conhecimento, mas apenas o desejo.

E ainda assim a nossa concepção de moralidade, Russell argumenta, parece completamente divorciada das realidades da experiência humana:

A moralidade atual é uma curiosa mistura de utilitarismo e superstição, mas a parte supersticiosa é parte mais forte, naturalmente, uma vez que a superstição é a origem das regras morais. Originalmente, certos atos foram pensados ​​desagradando aos deuses, e eram proibidos por lei, porque a ira divina estava apta a descer sobre a comunidade, e não apenas sobre os indivíduos culpados. Daí surgiu a concepção do pecado, como aquilo que desagrada a Deus. Nenhuma razão pode ser atribuída como a razão pela qual certos atos devem estar assim desagradando.

Ilustração de Ralph Steadman de ‘I, Leonardo’. Clique na imagem para saber mais (em inglês).

Isso, é claro, chama a atenção não apenas para o lamento geral de Mark Twain sobre a forma como nós usamos a religião para justificar a injustiça, mas também a superstição particular com a qual a homossexualidade tem sido historicamente considerada. Mas, ainda em 1925, Russell – um crítico consciencioso da religião – reconhece o absurdo de tal pensamento e aponta para o pensamento crítico necessário para a fabricação de nossa própria mente na avaliação dos supostos perigos que tal superstição condena como "imoral":

É evidente que um homem com uma visão científica sobre a vida não pode deixar-se intimidar por textos das Escrituras ou pelo ensinamento da Igreja. Ele não vai se contentar em dizer "tal e tal ato é pecaminoso, e fim de papo". Ele vai perguntar se isto provoca algum dano ou se, pelo contrário, a crença de que é pecaminoso é o que faz mal. E ele vai achar que, especialmente no que diz respeito a sexo, nossa moralidade atual concorda em grande parte que a origem é puramente supersticiosa. Ele vai notar também que esta superstição, como a dos astecas, envolve crueldade desnecessária, e seria varrida se as pessoas agissem por sentimentos de bondade para com os seus vizinhos. Mas os defensores da moralidade tradicional raramente são pessoas com corações quentes... Somos tentados a pensar que eles valorizam a moral para proporcionar uma saída legítima ao seu desejo de infligir dor; o pecador é um bom alvo, e, portanto, nada de tolerância!

Notável considerar que essa advertência de Russell vem duas décadas antes desses mesmos defensores sem coração da chamada moralidade enviarem o pioneiro da computação Alan Turing, um dos espíritos mais magníficos e significativos da humanidade, para a sepultura e quase um século antes da igualdade do amor triunfar sobre o DOMA (Defense of Marriage Act – lei federal dos EUA que definia o casamento como a união entre um homem e uma mulher). Muitas décadas depois, Oliver Sacks comentava em sua autobiografia que o "sexo é uma dessas áreas – como religião e política – onde as pessoas de outra forma decentes e racionais podem ter sentimentos irracionais, intensos”. De fato, Russell aborda este assunto diretamente:

Deve-se reconhecer que, quando não envolvem crianças, as relações sexuais são uma questão puramente privada, que não diz respeito ao Estado nem aos vizinhos. Certas formas de sexo entre adultos são atualmente punidos pelo direito penal: isto é puramente supersticioso, uma vez que o assunto não afeta ninguém, exceto as partes diretamente interessadas.

Grande parte disto, ele argumenta, é tarefa da educação, algo tão urgente hoje, quando o criacionismo – o modo mais padronizado de superstição – ainda está sendo ensinado em sala de aula:

Em todas as etapas da educação a influência da superstição é desastrosa. Uma certa porcentagem das crianças tem o hábito de pensar; um dos objetivos da educação é curá-los deste hábito. Perguntas inconvenientes são respondidas com 'shiii', ou com punição.

Meio século antes de O Pequeno Livro Vermelho e antes de Italo Calvino ter concluído seu caso apaixonado pelos direitos reprodutivos, Russell aponta sempre elegante a "moralidade" misógina defendida pela igreja:

Na puberdade, deveriam ser ensinados os elementos de uma moral sexual livre de superstições. Meninos e meninas devem ser ensinados que as relações sexuais se justificam apenas quando houver inclinação mútua. Isto é contrário aos ensinamentos da Igreja, que afirma que, desde que as partes sejam casadas e que o homem deseje outro filho, a relação sexual é justificada por maior que seja a relutância da esposa. Meninos e meninas devem ser ensinados a respeitar a liberdade de cada um; eles devem entender que nada dá direitos a um ser humano sobre outro, e que o ciúme e a possessividade podem matar o amor. Eles devem ser ensinados que trazer outro ser humano ao mundo é um assunto muito sério, apenas quando a criança tiver uma perspectiva razoável de saúde, bom ambiente, e atenção dos pais. Mas eles também devem ser ensinados métodos de controle de natalidade, de modo a garantir que as crianças só venham quando elas forem esperadas.
Ilustração de Maurice Sendak para ‘Open House for Butterflies’ de Ruth Krauss. Clique na imagem para saber mais (em inglês).
Voltando à relação entre moralidade e os dois pilares da boa vida, Russell – antecipando por várias décadas a famosa proclamação de Martin Luther King que "a injustiça em qualquer lugar é uma ameaça à justiça em todo lugar" –, escreve :

Regras morais não devem tornar impossível a felicidade instintiva.
[...]
 A boa vida, como dissemos, é uma vida inspirada pelo amor e guiada pelo conhecimento ... [Mas], em tudo o que diferencia uma vida boa e uma ruim, o mundo é uma unidade, e o homem que pretende viver de forma independente é um parasita consciente ou inconsciente.
[...]
Para viver uma boa vida no sentido mais completo um homem deve ter uma boa educação, amigos, amor, filhos (se ele os desejar), uma renda suficiente para que não falte o básico e para evitar a ansiedade, boa saúde e um trabalho que não seja desinteressante. Todas essas coisas, em diferentes graus, dependem da comunidade, e são ajudados ou prejudicado por acontecimentos políticos. A boa vida deve ser vivida em uma boa sociedade, e não, isso não é possível de outra maneira.



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*Clique aqui para ler o artigo original: Brain Pickings.

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